sábado, 1 de julho de 2017

OS INFELIZES



São sempre infelizes e sofrem muito, demasiadamente
todos os que, a duras penas escondem dentro de si
as brasas incandescentes e recolhidas das vontades.
E as brasas mais quentes da vida 
e, que nunca se apagam dentro da gente
serão sempre as brasas vivas dos desejos
e dos sentimentos mais sentidos
sufocando uma a uma, 
nossas melhores vontades.
As brasas, que sempre ardem 
e queimam na fogueira das vaidades
nossos sonhos maiores de aventura e de felicidade.
Brasas de um fogo ardente 
que, noite e dia nos consomem com a tal fome e voracidade 
transformando em cinzas as coisas boas desta vida:
Os momentos, as utopias, as espontaneidades de viver,  
além do sorriso, o prazer, a paixão enlouquecida e a liberdade 
sob os quentíssimos grilhões da penúria de espírito,
da tristeza e da passividade que destrói 
e mata para sempre a vontade de viver
bem como a alegria que se tem na alma.
___
Jc

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

TUDO O QUE EU VI...



Um escuro de botar dedo no olho.
Um molho ardido de malagueta e pimenta de macaco.
Um prato rebolado no terreiro na noite de relâmpago.
Uma candeia a iluminar a mesa do santo.
Uma cadeira de couro de boi encostada num canto.
Um fogo de trempe, um beato cantando um bendito,um penitente.
Um som de besouro, um tacho de zinco.
Um riacho seco, um calor dos seiscentos diabos.
Um mergulho, um nado no rio fundo, um formigueiro.
Um pote de barro, uma forquilha, um rádio de pilha.
Um fedor de sarro de cachimbo e de cigarro.
Um feixe de garrancho, um quadro antigo de Jesus Cristo.
Uma caieira de queimar tijolo, um forjo, um cupim, um bisaco.
Um touro tarado, uma fornalha de engenho,
Um menino danado,  um cego escroto, um violeiro enamorado.
Um trovão de estalo, um ovo cozido, 
guizado  de arroz, óleo de rízimo e pão dormido.
Um poeta encantado com seu verso alado.
Uma estopa, uma  esteira de palha, um raio de corisco,
uma chuva de janeiro, um assopro no olho pra tirar cisco.
Uma reza de mulher véia, uma novena ao santo padroeiro.
Uma bandeira, um carrocel, um jogo de azar, um pau de sebo.
Uma quermesse, uma prece, um zabumbeiro,
um tocador de pífano, um padre milagreiro, um bebo zuadento,
Uma briga de foice no meio da noite,
uma vaca amojada, uma gata molhada...
Um gemido de mulher no gozo, 
Um suspiro de morte, um tiro de garuncha e baladeira.
Uma bufa, um riso torto, um malasombro, um beijo roubado.
Um medo de alma penada e de Vicente Finim.
Uma cupira na ponta da estaca, uma saga de valente. 
Uma estória de trancoso, de Lampião e padim Ciço.
Um anjo querubim. Um pedaço doce de alfinim.
Um jagunço, um chapeado, um barbeiro, 
um alfaiate, um cangaceiro.
Um arrastado conhecido de pinico, um cheiro de mijo, um viado.
Uma cangaia de pau roliço...
Um voo de anum, de bem-te-vi e tico-tico.
Uma cerca de vara, um carro de boi, uma latada, 
uma  caixa de medir feijão,
Uma balança de peso, um Anão, 
um palhaço de Circo.
Um agouro, um berro de bezerro nascido,
Um gole de leite mugido, Uma tigela de torresmo e angu de milho.
Um pilão, uma renda de bico. Um fuso de algodão, 
um tear pra tecer tecido,
Um cabo de foice, um soldado raso, um martelo.
Uma caneca de garapa, um beiju, um doce quebra-queijo.
Uma rapa de juá pra lavar os dentes.
Um café quente, um rapé, um bicho de pé, um monte de piolho.
Um balde de tiborna para os porcos do chiqueiro e os bacurins...
Um landuá, um azol, uma loca de cari e corró baiano.
Um peixe frito  para tira-gosto.
Um taco de queijo, um naco de carne de preá, enfim
uma naigada de fumo de rolo, 
Um facão rabo galo, um pote de aluá.
Um rato canoeiro assado, uma catemba de coco.
Uma bicada de cana. Um cacho de banana
Um bando de quenga no frejo.
Uma cabaça d'água, uma canga...
Uma anágua, uma mulher da vida
Uma bela cigana, fogoza e entretida,
Uma gaiola de pendão de cana.
Uma arapuca, um chá de romã, uma prosa,
um dado feito de mucunã.
Um doido varrido, um cambiteiro, uma rapadura quente.
Um toco de amarrar jegue, um abestado chamado Zé.
Um moleque de recado, uma donzela espritada,
Um alcapão, um bica de água, um escaldado de leite,
uma manga doce, um imbu, uma oliveira.
um visgo de aveloz, uma galinha d'água, um cordoniz
um sonho atroz...
Um frasco de água benta, uma morena.
Uma loção de alfazema, um samba no pé da serra.
um tronco de unha de gato e de jurema.
Uma briba, uma rã, uma cobra preta.
Uma cumbuca, um emborná, uma careta, 
Uma macumba, um feitiço, uma praga.
Uma caipora, o pai da mata e mais uma  vara de virar tripa
Uma garrafa de conhaque, uma peneira.
Um gibão de vaqueiro, um balaio, um paiol,
um caboré choco.
Um pássaro noturno agourento.
Um arroto, um vento, um grito...
Uma alpargata de couro e de rabicho.
Um cheiro do mato. Um aroma de flor, uma brisa...
Um cachorro magro e  sardento.
Um barulho de quero-quero e de grilo.
Uma botija, um rato, um sapo cururu,
uma gia de cacimba e um caçote de buraco.
Um velho mijado e fedorento.
Um trovão de estalo.
Tudo isso e mais um pouco é tudo...
Nada mais que diga, eu vi
Porque todo o resto se eu disser é muito.
___
JC
Aurora-CE.
Ilustração da Internet.

quinta-feira, 24 de março de 2016

PENITÊNCIA*



Andanças noturnas por entre os matos
e pelos grotões medonhos do mundo.
Seres  enigmáticos dos sertões
sofríveis mas crentes
em tudo o que é  místico e sagrado.
Cântico profano e profundo
de todos os caminhos solidários.
Argonautas dos sertões dos esquecidos.
Oblações, litanias e outros  benditos fecundos...
Pássaros das noites insones:
- Penitentes, protagonizando o fenômeno..
Andarilhos da fé aplacando com  sangue
os pecados dos homens ante o divino,
perante os sofrimentos de Jesus Cristo.
Gentes, orações  e vaga-lumes. 
Seres incríveis, crentes e alados.
Rezando, como a singrar o infinito
pintando de branco os  escuros
pelas noites a dentro iluminados.
Duendes e anjos inconscientes
criados na lida da vida
a cada novo instante;
diante dos  olhos e pelas mãos milagrosas
da divindade maior do  onipotente.
________
Jc  Aurora – CE.

terça-feira, 23 de junho de 2015

QUANDO

QUANDO TE VI
NAQUELE DIA
- AMOR...
EU, BEN-TE-VI.
E TU, BEIJA-FLOR.

E NO DIA
EM QUE TU SE FORES.
NADA MAIS EU DIRIA.
-  DAS DORES.
EU, SAUDADE
E TU, DISSABORES.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A Gesta do Tempo...*


Odeio os relógios,
assim como todas as pessoas
que se permitem ser cronometradas pela vida inteira.
Tenho verdadeira ojeriza aos chamados compromissos "britânicos".
Às horas marcadas 'como sem faltas'.
Às coisas inadiáveis roubando da gente o prazer da espontaneidade
e  a rara grandeza do encontro fortuito.
Sou por tudo isso inimigo dos relógios 
e de todos aqueles que acham normal
viver a vida toda escravizados por esta abstração chamada tempo..
O que eu gosto mesmo, é deste jeito livre, meio passarinho,
meio menino, como vivo por inteiro tudo.
Faço o que quero e acho que sou feliz por conta disso.
Meu tempo é quando. Todo o resto é mistério.
O que aprecio e defendo ante a gestão do tempo
é a liberdade de viver a vida como suponho correto.
Fazendo tudo no tempo devido...
E no momento oportuno dos meus sentimentos.
Gosto de me ser surpreendido.
Por isso digo: 'Quando' é meu tempo.
Tudo o mais que me surpreende é o melhor momento
em que mais me alegro e mais aprendo.
O instante novo e eterno para o meu sonho e pensamento,
Sem relógio! 
Assim é que vivo pleno da vida e de mim mesmo.
Tudo o mais que desejo e que acaso preciso,
é segredo.
Eis o jeito que encontrei para dominar a meu favor 
este tal de tempo.
E a vida, nunca mais escorrerá à toa pelos meus dedos.
.......................
JC, 2015
foto: da internet

sábado, 23 de maio de 2015

A única falta que me falta*

Agora, só o que não me falta 
[é toda a falta,
das coisas supérfluas que não me completam,
além de toda calma e esperança
da paz interior que ora me sobra 

e me conforta. 
E às vezes, se acaso sinto que algo me falta,
toda a minha falta 

[é tosca, é mansa e ilógica.
Decerto, angústia, ânsia da vida,

coisa pouca... 
que sequer a bílis me  provoca,
tampouco o tédio, a raiva e a vontade me alcançam.
Porque, nenhum falta que acaso me toca 
não será tanta, que eu não possa
superá-la com humildade e perseverança
diante desta força 'monstra'
contida na minha própria consciência, 
lúcida, holística e lógica

e que jamais me cansa.
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(JC) Aurora - CE - 2015

sábado, 9 de maio de 2015

Amai a tua mãe*

Aproveitai
enquanto tens todo  o teu ouro.
Porque todo tesouro,
não valerá  muito mais
do que todo o bem e todo amor
que tua mãe te faz.

Amai
o tanto que  fores capaz.
Porque o tempo e a vida
não hão de te voltar nunca mais.
Aproveitai
enquanto tens a tua mãe.
Amai, amai, amai.
...........................
JC - Aurora/CE. 2015
imagem; Internet

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Indo embora*

Apenas ide
e não mais vide.
E se acaso tu ides
só vides
caso  duvides.
Caso ide
ou caso vide,
nem ligue
pois estamos quites.
......................
(jc) 2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

FECHAM-SE AS CORTINAS, ABUJAMRA PARTIU...*

Por José Cícero*
O pensamento e a arte brasileira ficaram mais pobres a partir da manhã de hoje(28) com a morte de Antonio Abujamra - ator, diretor de teatro, filósofo e apresentador do programa de entrevistas "Povocações" da TV Cultura. De longe o mais interessante programa(senão o único que vale a pena) da TV do Brasil, sobretudo pelo formato simples, inteligente e original.  Ao meu juízo, o único que merecia a gastança do nosso tempo em assisti-lo do começo ao fim, malgrado está inserido na grade de programação num horário estranho, ou seja, depois das 22 horas.
Figuras especiais como Abujamra deveriam viver para sempre, tamanho é o bem que prestam à sociedade quando ensinam e ajudam o povo a pensar sobre a vida, o mundo e sobre si mesmo. Portanto, mais do que quaisquer qualitativos pensamental ou  artístico, diria que Antonio Abujamra foi um homem de exceção como certa escreveu Nietzsche. Um pensador valente e ousado no sentido mais lato da palavra. Alguém que dedicou parte da sua vida à feitura da arte e o melhoramento do mundo ao disseminar a cultura do conhecimento e educação às pessoas, justamente num meio onde hoje, mais do que nunca, o que prevalece e faz sucesso infelizmente é a mediocridade e o lixo cultural. 
Mas nada disso desanimou Abujamra - Ele não temeu seguir o caminho inverso resolvendo dá a sua própria cara  à indiferença dos mandões da mídia marrom ao apresentar o seu 'Provocações' - algo realmente novo e  pioneiro  neste gênero. 
E assim conseguiu também ser engraçado sem que fosse preciso perder a ternura ou baixar o nível das discussões. Dotado de um senso de humor refinadíssimo e, apimentado com muita filosofia e poesia, Abujamra com seu estilo único  juntou num só espaço: jornalismo cultural, arte, política, literatura, filosofia dentre outros temas essenciais à reflexão e a crítica da sociedade. E assim, conquistou um público cativo e difernciado  ao comandar com maestria cerca de 695 edições do programa  no decorrer de  14 anos  de apresentação. Onde entrevistou grandes personalidades da vida social brasileira, entre as quais muitas gentes do povo que mesmo tendo tanto a dizer, não encontravam espaço nas outras emissoras. 
E  "O que é a vida?" Era com esta pergunta, aparentemente fácil mas, profundamente metafísica que o ator, diretor e apresentador Antonio Abujamra gostava de encerra o seu "Provocações", cujo último recentemente gravado em SP  irá ao ar na noite de hoje(28) no exato dia de sua morte.
"Como é que você gostaria de morrer?", "Quais são seus males?" e "Que pergunta você gostaria que eu tivesse feito e eu não fiz?" Estas eram algumas das cartas que o ator e diretor tinha na manga para investigar a personalidade de seus convidados. 
Ainda, no encerramento de cada programa lia sempre um texto belo e sugestivo, no mais das vezes de cunho filosófico ou poemático com a tela cheia com aquele seu olhar carregado de estranhamento e de verdade. O que tornava o programa de fato, uma enorme provocação.
Agora, com a partida inesperada de Abujamra fico me perguntando;  o que deve ser mesmo a vida. E penso que a vida é isso: viver  abujamramente com intensidade todos os momentos, fazer e doar o melhor de si de modo holístico, filosofar o mais que possível,  beber no cálice da arte e não ter muita preocupações comezinhas com a busca da tal felicidade. E, tampouco com o fim ao qual de algum modo estamos destinados.  
Sem ele, no mais fica o vazio e o tédio de uma TV ignominiosa  que a todo custo tenta mostrar para o povo que o mundo e a vida é tudo aquilo que se enxerga falsamente pela telinha. Mas Abujamra, alertou nos dizendo que não.
Vai em paz mestre Abujamra! Você fez muito mais do que podia no palco cinzento de uma vida madrasta. Fez o necessário, razão porque agora sabemos que a vida realmente precisa a qualquer custo valer a pena.
Não sei se te digo adeus ou até logo. Porque no fundo bem sei que a morte não existe por si mesma... a morte é tão somente uma evolução. Um passo à frente. O despertar para à eternidade. 
E se assim o é -  Então até breve meu mestre!
______________
(*) José Cícero
Secretário de Cultura e turismo
Aurora - CE.
foto: internet

terça-feira, 21 de abril de 2015

UM DEDO A MAIS DE PROSA SOBRE LAMPIÃO*


Muito já se sabe sobre a história de Lampião em seus quase 20 anos de intensas estripulias pelos sertões de sete estados nordestinos. Porém, ao contrário daquilo que muitos ainda imaginam, inclusive bons pesquisadores e outros “escribas livrescos”,  há muito ainda a ser desvendado e escrito acerca da saga lampiônica pelos grotões sertanejos.
Informações fundamentais para que se consiga de uma vez por todas, compreender tal história e assim, fechar-se o imenso círculo narrativo de toda esta complexa empreitada de quatro décadas chamada Cangaço.
De longe o mais importante fenômeno social já ocorrido nos sertões nordestinos e que teve na figura humana e singular de Virgulino Ferreira da Silva – o Lampião, o seu principal protagonista. Conquanto, quer seja como herói ou como bandido, o certo é que Lampião representa até os dias atuais um autêntico divisor de águas no que concerne à história sertaneja. Posto que, depois dele o sertão nunca mais seria o mesmo.  
Neste dualismo existencial, quer seja para o bem ou para o mal, os feitos produzidos pelo vilabelense rei do cangaço entraram para à história como algo imorredouro,  fornecendo ainda hoje  combustíveis inesgotáveis para grandes debates e discussões acaloradas. Algo tão comum quando se trata de grandes personagens da história humana na sua dimensão universal.  
O cangaço, portanto, com sua escalada de feitos e violências, a partir de Lampião ocupou de vez grandes espaços na agenda sociopolítica do litoral, chamando assim as atenções da opinião pública não somente de dentro do Brasil. Fazendo com que a sociedade da época começasse a dá-se conta da péssima situação de miséria, violência, injustiça, e abandono em que se encontrava submetida populações inteiras dos sertões do Nordeste por anos intermináveis de sofrimento e abandono. Só a partir de então, diria que efetivamente o sertão dos esquecidos passou a fazer parte do país dos poderosos. Porém a história dos oprimidos continuaria a ser escrita/descrita sob a pena dos vencedores.
O autor prof. José Cícero
O fato é que, Lampião, a um só tempo, foi vítima e também responsável por parte importante deste verdadeiro estado de barbárie quase absoluta que se abatera sobre os rincões inóspitos e abandonados do interior do Nordeste pelos poderes da capital. Razão porque(hoje mais do que nunca) é preciso analisar de modo objetivo e distanciado de quaisquer ranços de ódio ou de paixões, as muitas faces e roupagens com que se vestiu o espectro  do cangaço em sua dimensão mais  realista e mais cruel. Assim como todas as motivações que se impuseram sobre os povos dos sertões forçando muitas vezes a ingressarem na vida cangaceira, seja por vingança ou mesmo por pura necessidade de sobrevivência.  
Muitos dos quais como jagunços à serviços dos coronéis seus patrões. Depois, como integrantes de grupos e subgrupos de temíveis cangaceiros que durante aqueles anos infestaram a região de uma ponta a outra. No mais das vezes indivíduos perigosos e sanguinolentos acostumados ao sofrimento de um mundo sem lei para os quais a única lei que realmente valia era a “lei do cão”, cujo roubo, a vingança, a morte e o uso da força  eram  no senso comum de sua maioria a expressão mais forte e mais sentida.
Neste aspecto, é possível muito bem se afirmar que a dinâmica do coronelismo da época que grassava pelos sertões muito pouco se diferençava do cangaço em seu modus operandi corporificado por sua sanha absurda de criminalidade, opressão, pilhagem e injustiça de toda sorte. De modo que, em ambos os casos, foram sempre os sertanejos mais pobres, suas vítimas em potencial. E neste contexto em que se precipitaram todos aqueles acontecimentos dantescos, Lampião e sua gente, seriam apenas mais um, que por vingança, sobrevivência ou manutenção da honra acharam-se no ‘direito’ de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.
Como se percebe, mais uma evidência de que quando o Estado não se impõe aos homens por um dever de justiça, os homens se voltam contra o Estado como que pela justiça do dever. E assim, ambos se fazem criminosos, tanto pela indiferença quanto pela omissão de todos em relação ao bem comum. E nesta correlação de forças, o povo do sertão foi o grande derrotado.
Por conseguinte, com ou sem a marcante presença de Lampião(um homem que se fez valente para não sucumbi), os sertões nordestinos nunca foram o tal ‘céu de brigadeiro’ como se fingia crer a maioria perante a manutenção do status quo dos poderosos em sua aparente tranquilidade bizantina.  Assim, de modo um tanto quanto enviesado e incompreendido, eis que Lampião – o sertanejo, continua ainda hoje(quem sabe) a pagar sozinho o alto preço de uma injustiça institucionalizada que se fizera madrasta dos necessitados ao longo de todo este tempo.
..........................................
(*) José Cícero ______
Professor, Pesquisador, Escritor
e Conselheiro do Cariri Cangaço.
Autor do livro 
"LAMPIÃO em Aurora: Anters e Depois de Mossoró"(Inédito)