sexta-feira, 10 de junho de 2011

POESIA: O Pescador de Sonhos*

O PESCADOR DE SONHOS...

A memória de Seu Quilô

Vai, velho pescador
de sonhos e utopias.
Travar o bom combate
do teu dia-a-dia.
Romper sem medo
com seus passos
os caminhos íngremes e escuros
de todas estas madrugadas
sonolentase frias,
que há muito caíram
sobre a tu vida.
A se perder de vistas
por entre as matas.

Vai, pescador.
Herói do Jaguaribe
e do meu Salgado.
Enches teu cesto de pescado
e a tua lida de metáforas
e outras valentias.
Segue teu destino,
pescador amigo
da minha Aurora-passado.
E com teu anzol na vara...
Vara,
esta madrugada
à nado.
Com teus braços fortes
fé nos olhos,
mãos e dedos
...
Ergues teu orgulho ribeirinho.
Misturando-se de vez
às doces águas
deste grande rio
de uma saudade chamada: Salgado.

E em seguida,
como um menino danado,
lanças de novo ao mundo

a tua rede.
Gritando alto em teu silêncio
que acreditas
e jamais sentes medo.
* José Cícero -
In Minhas Metáforas Prediletas(2011 inédito).

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domingo, 5 de junho de 2011

Na pedra da velha estação

Quem viveu aquele tempo
Sente saudade agora.

De tudo que se passou

De tudo que nos marcou

Na estação de Aurora.

Lembranças de um passado

Do trem da feira do Crato

Indo e voltando atrasado.

Café de Maria Rocha,

Pão-de-ló e peixe assado.

Um tempo de romantismo
A encher nossa memória.
Sonho azul, primeira classe
Marco maior da história
Comboio de novidade.
Um turbilhão de saudade
Do trem da feira do Crato,
grande atração da cidade
Daquele trem encarnado
Café de Maria Rocha,
Pão-de-ló e peixe assado.

Dos fardos de algodão
Da rapadura, oiticica
Do milho lá do Pavão
Do povaréu aglomerado
Na pedra da estação.
Recordação do passado
Do trem da Fortaleza
Indo pra feira do Crato.
Café de Maria Rocha,

Pão-de-ló e peixe assado.
.....................................................................
(*) JC/ In Poemas Inéditos(2011)

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sábado, 4 de junho de 2011

QUANDO UM DIA PARTI...


Eu disse adeus ao meu lugar – o sertão.
A terra em que nasci
E que mesmo sofrendo, fui feliz.
Eu parti.
Deixei pra trás a minha gente
E a minha história.

Nada disso eu quis.
A miséria me expulsou de casa
Virei retirante,
Mendigo.
Cavaleiro andante de mim mesmo.
A fome tangeu-me para longe:
Léguas tiranas...
Vaguei no eito semi-árido
como bicho do mato
morto de sede
Buscando uma poça d’água

na caatinga de outros mundos.
E a seca doravante com a morte
Fez um pacto.
Secou a cacimba e o riacho.
Matou meus pais
E os bichos.
Minhas irmãs se perderam
No ‘oco do mundo’.
Agora, toda solidão que existe
Morra comigo.
Corrente, meu cachorro ensinado,
Morrera enganchado
Enfraquecido de fome e sede
Entre as moitas brabas
de avelóz e unha-de-gato
Apenas eu sobrevivi.
Sou um solitário sobrevivente.
Porque corri há tempo
Para bem longe.
Uma terra estranha
que não é a minha.
Mas morro todo santo dia
Toda vez que esta saudade teimosa
Bate a minha porta
Como um velho conhecido
Da minha terra,
trazendo notícias
e uma carta,
do torrão em que nasci
e que deixei pra trás,
em troca de uma caneca d’água.
Desde então, vivo à pulso
E de teimoso.
Farto de lembranças
E de saudade.

JC/ A Minha Prosa é uma rosa.(inédito)

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