segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SERTÃO DE ABELHAS - Por José Cícero



ABELHAS SERTANEJAS E OUTRAS SAUDADES...

Lá na beira do riacho do meio
bem na grota que descamba pro poço fundo
uma grande catingueira velha
carcomida e furada bem no tronco
onde mora uma antiga Mandasaia.
Cheia de mel doce com cheiro de imburana
abelha mansa e outra italiana enfezada.
naquela mata existe ainda Uruçu,
numa enorme braúna alta e ocada
repleta de mel de Manduri e Jandaíra.
E na sombra fresca da nossa casa
também abelha de Canudo mansa
e um enxame de Jati sob a latada.
E Lá na roça do velho Jiqui há um Inchu
arranchado nas galhas do pé de oiti
abelha Mosquito, Moça Branca, Arapuá
Jandaíra, Sanharol e Inchuí.
existe ainda uma africana braba
morando num tronco de um gameleira velha.
e num oco fundo do Inharé
uma verdadeira fábrica de cera:
Sanharol trabalhando a vida inteira
a fabricar a cola natural dessa ribeira.
E bem na copa do frondoso pé de juá
se ver a morada de uma cupira.
Subindo mais pra riba da fazenda
Há uma Ingazeira,
logo depois das ribanceiras
na cabeça do morão servindo de estaca
Um grande cupinzeiro,
onde há anos habita uma Cupira braba.
Formigas de roça, besouros mangangá e abelhas
Casa de taipa por trás das oiticicas
Marimbondo, cavalo do cão, mutuca da mata,
Tudo o mais é pura saudade
que tenho da natureza do sertão
que ora relembro e penso com emoção
sentado sob as moitas de jurema, unha de gato, avelós
ou na sombra aprazível e fresca
do Joazeiro e da Aroeira
que ainda agora adornam a beira da antiga estrada.
.....................................
José Cícero
Secretário de Cultura
Prof. de Biologia
Pesquisador do Cangaço
Aurora-CE.

Fotos: http://urucueabelhasnativas.blogspot.com

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Saudade de Chico Passeata e Zé Mago* - Por José Cícero


Perdemos recentemente
dois amigos.
Velhos companheiros de luta e caminhada.
Autênticos comunistas.
Utópicos guerreiros do sonho coletivo
de um mundo novo, justo e igualitário.
José Mago – o Guevara cosmogônico
da Missão Velha - PC do B Sul caririense
o incompreendido...
E o poeta-doutor Chico – o Passeata.
O autêntico lutador fortalezense.
Um Dom Quixote, cidadão do mundo.
- um exemplo a ser imitado.
Ex-preso político e combatente
da ditadura militar.
Quanta saudade!
Agora tenho comigo,
destes dois camaradas que partiram...
E que há tempo dividimos em conjunto
inesquecíveis momentos de ativismo político.
Combates, campanhas, encontros, comícios e seminários.
Pedaços importantes de uma vida inteira

dedicada ao sonho construtivo,

do socialismo democrático.

Que a luta em favor da justiça e da paz

agora e sempre continue noutro plano.

Viva Zé Mago da Missão Velha
!
Viva o grande Dr. Chico!
O poeta-médico do entusiasmo

q
ue fez da própria vida
um grande poema libertário

em favor dos pobres, oprimidos e injustiçados.

Mas os que lutam desmedidamente
a vida inteira por um sonho

nunca morrem de verdade...

Razão pela qual eu grito alto
aos quatro ventos
do mundo
que o velho Chico Passeata e Zé Mago

não morreram.

Apenas deram um tempo

e em seguida, se encantaram.

.............................
(*) José Cícero -
Secretário de Cultura
Aurora - CE.

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cangaço:

UM POEMA CHAMADO CANGAÇO...

Por José Cícero

http://www.aquiconectados.com.br/colunistas/jose_cicero.jpg

Á sombra daquele centenário pé de joazeiro
Cujo mesmo como testemunho solitário
Ainda ali na curva do antigo caminho,
se mantêm, à duras penas, vivo.
levei comida, informação, água e munição.
tantas vezes pela caatinga adentro,
aos jagunços

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjDgPIaVqBbzPWctAGP18MR07w4IfTZ4ZwrwHMy7QPw6KsIYfNnoOPM75lGvbWg3acpbi58vQj-lulc0Mwtba1gqYx6diyM1ufolhI2UEez8gC1z16gt1leRiWNE-vKMQy1q94w_BVXnQ/s1600/ISAIAS+ARRUDA+GRupo.jpg

de Izaías Arruda

http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQv2ltqCfl0h5wtM3XN-Awyj-Mggf89bPDolSmrgjNhmFtCV3Xv

e os cabras de Virgulino - Lampião.

http://ternoechinelo.com.br/wp-content/uploads/2011/07/maria-bonita3.jpg

Foi um montão de cangaceiros
que nem me lembro os nomes,
sei apenas que foram tantos
agora em meus sacrifícios
de recordação...

Não tive escolha em abraçar esta opção.
Servir aos bandoleiros com tal desvelo.
Forçado pela sorte, fui amigo e fui coiteiro

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/0a/Antonio_Silvino_(em_p%C3%A9_segundo_a_esquerda).jpg/200px-Antonio_Silvino_(em_p%C3%A9_segundo_a_esquerda).jpg

de Silvino,

http://tokdehistoria.files.wordpress.com/2011/03/digitalizar0002e.jpg?w=166&h=300

Luiz padre, Sinhor Pereira e Lampião.

http://iaracaju.infonet.com.br/LAMPIAO/images/lampiaoD.jpg

Apertei a mão de

http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSBY-LMBfZPoFCgnLLt3TCg-kXI6WciEK6imFdi1Eunj7pWMHDPnien8cIz

Massilon,

http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ1QNun_w54YxdnsPi0lI6dNyLByFDKoA3L7EbH_AGAc7dGmWMLLA

Sabino

http://photos1.blogger.com/x/blogger2/1632/221566888419920/600/z/287857/gse_multipart36465.jpg

e Chubim Sorri para Durvinha,

http://vilamundo.org.br/wp-content/uploads/2011/03/MARIA_BONITA_III_ABA.jpg

Maria Bonita

http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQg_VHRieGdPYjFydfuZ3N5tdFYbOVgXwN1KvWKiNWOUpinrofu8Q

e Dadá.

Com ciúme, uma vez

http://www.onordeste.com/administrador/personalidades/imagemPersonalidade/3114b42553d67b294c1b3275e99497b6289.jpg

Corisco quis me ameaçar.
Contudo, Lampião foi meu amigo.
Dizendo alto: - com este ninguém mexe não!

Fiz amizade, fiquei conhecido
De Zé Inácio, Izaías,

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3gOR2QWj1wyKqUut7JYIMywDKynO8OLT_f1CrQbUG6YhOnzeoQHfluMwen-MkXKqGli2IBmVJVVygsTkOAtzs96qpxRoGg_clFYIqUQvuLEjxnvstPcqpfrNwtWqIDsT01MMn4lMpNUI/s320/Antonio+da+pi%25C3%25A7arra+coiteiro.jpg

Antonio da Piçarra

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgoKgV8aHTh9A0STI7HEHb5zhAf49wGK47wFgl5EKKfOchyphenhyphen48siVdowyAnuNgD1MusI-OB4HstZilTlfzU8llmIjBwVQVWvVgSVqvLQdxEVcVGCyBE9yEUfkf8fgQ-ulSGlWgTK7t69_Q/s400/Cel+Santana.JPG

coronel Santana

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4a/Padre_C%C3%ADcero_c._1924.jpg

e padre Cícero Romão
O maior dos santo do nosso sertão.

Chamam inda hoje de bandido e de ladrão
Todos aqueles antigos cangaceiros,
Mas aqui nos escondidos do sertão
Em que ficamos por anos abandonados,
Meu senhor – digo que não!
Pois os volantes dos governos da nação
Foram naquele tempo (em alguns casos)
até mais violentos e mais bandidos
Que os bandoleiros do capitão meu amigo.
Vez que surraram e mataram nossos filhos
Violentaram as meninas – seu moço.
E ainda puseram as mãos
no nosso dinheiro que já era tão pouco...

**************

José Cícero
Aurora-CE.
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Nobre escritor, poeta, pesquisador e Secretário de Cultura de Aurora, José Cícero. Não fiz nada mais do que fazer uma ilustração ao seu poema. Permanecem intactos os seus versos sem exclusão ou aumento de vocábulos. É claro que houve uma alteração no formato, mas isso não tira o sentido do seu poema.

José Mendes Pereira

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Um Canto Poetificante...


Erro Médico

...E o doutor sumo – especialista
pleno de sua arrogância
adentrou o quarto.
Vestido em seu impecável jaleco branco.
Tinha a aparência dos anjos para o moribundo.
Um lenitivo. Um refrigério...
Certamente a última esperança que lhe prendia a vida.
E de cabotino durão, com sede de ouro para todo o resto,
pensava o esculápio em sua conta bancária.
- Preciso ganhar dinheiro!
E assim, envergou seu bisturi ligeiro
na direção do paciente desfalecido.
Decúbito dorsal.
Riscou a geografia daquele corpo inerte sobre a maca fria.
Seguira sem pestanejar seu padrão gregário.
Na mais pura e desumana das intenções.
Mais uma vitória da cruel mesmice
sobre a boa prática da caridade alheia.
Faltava ao médico acreditar na vida
pelo ângulo verdadeiro.
Porém a esperança dos otimistas
Esperava piamente, por seu gesto digno.
Pela fina Lâmina afiada do monetarista.
Uma incisão. Um corte longitudinal.
Sangue sobre o lençol igualzinho o dele.
Lâmina tênue do instrumental.
Deslizando sobre a carne viva do paciente
como ele próprio, organicamente calmo,
cheio de paciência e de pecado.
Enfim, rasgou-se a pele do tecido humano.
Faca de Hipócrates de Cós
adentrando a carne fraca da pobre alma.
Um Paracelso pós-moderno.
Às avessas.
Neo-açougueiro insensível.
Louco por cobre e por dinheiro.
Mas de repente,
Não mais que de repente.
Ele parou no meio do caminho.
Pensou por um instante decisivo.
- Preciso ganhar dinheiro.

O corte aberto como um buraco negro
sobre o corpo do seu paciente desfalecido.
Mas no meio do caminho tinha uma pedra.
Quando soube que o moribundo não tinha posses.
Apenas não sabia o tal doutor,
que todo conhecimento a Deus pertence.
Que toda ciência emana dos céus.
Contudo, muito mais doente
que o moribundo homem que cortava
estava o cristianismo mundano com aquilo.
Ignominioso fato.
Mais mesmo abortando o cirúrgico ato
o tal médico anticristão do mundo
continuará riscando para sempre,
como um castigo,
com seu bisturi monetário
sobre a sua própria carne
ainda mais patológica e claudicante,
os limites contraditórios
daquele seu ato triste e falho.
Mas que não fora o primeiro.
Quiçá em sua própria carne
cheia de pus, pecados e micróbios...
O médico ainda assim seguirá cortando
o tecido frágil do imponderável mistério.
Naquele instante - teve um estalo: sonhara ser político.
Pensou ele:
- Isso é mágico. Quem não tem dinheiro paga com o voto.
E em dívida com seu humanismo sedentário
Decerto, noutro plano.
Pagará em dobro ele próprio, o maior dos preços.
Pelo seu lamentável procedimento.
Assim como todos(que como ele) não operaram a feitura do bem
no tempo devido aos pobres.
Não elegendo a caridade como o farol da vida eterna.
Todos os que optaram pelo monumental contra-senso
entre o ético e o científico.
A vida e o dinheiro.
Uma contradição perante o seu compromisso ético.
E a operação ainda segue a sua lógica tosca e fria:
Onde quem pode pagar – Vive.
E quem não pode, à míngua – Morre.
Pobres médicos, estes, que mesmo doentes ainda não se deram conta
que no além-fronteira da vida não há moeda,
malgrado todo o dinheiro que juntaram
talvez não encontrem sequer quem os operem
dos grandes males que acumularam.
........................
Por José Cícero - In Poemas Inéditos(2011)
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domingo, 24 de julho de 2011

DICAS DE ETIQUETAS E OUTRAS BABOSEIRAS IMPOSSÍVEIS...

Por José Cícero

DICAS DE ETIQUETAS...
Qualquer semelhança não será mera coincidência.

Troque seu pente e sua bolsa chique
por um canivete e todo o seu orgulho besta
por um daqueles espelhinhos de bolso
antigo e redondo de artista e mulher pelada
que a gente comprava nas bancas da feira
por um pequeno trocado.
Troque seu sutiã e toda a sua sexy langerie
por um corpete encorpado
daqueles que se encontrava fácil
aos montes, nos velhos mercados
junto das bancas dos açougueiros
próximo do beco onde se amarravam os cavalos.
- ‘Só no Crato’ mesmo!...
Esse negócio de moda nos dando ordem!
Troque logo, troque...
sua calçinha de renda cearense
por uma bela anágua de viúva.
Suas sombras dos olhos que mais parece um conde Drácula
por uma leve pintada nunca indecorosa,
de pó de arroz, ruge carmin e talco
Alma de Flor e Charisma da Avon que são baratos.
E não esqueça também de comprar
uma latinha de brilhantina para meu presente.
Sabonete febo e Gessy e um baton à base de urucum.
sua cerveja por uma garrafa de Crush, Grapette e Fanta uva.
Troque já seu modes absorvente por uma rudia
de pano branco de algodão murim
um tanto encardido e macio,
mas que pode ser sempre relavado.
Isso não lhe trará nenhum incômodo
além de tudo é muito prático,
quando estiver suada naqueles dias ruins.
Troque também antes que eu me esqueça,
O salão de beleza que é caro e tem muita química
para seus cabelos,
por um bonito conjunto de Bobes verdes e amarelos
faça da tua cabeça um verdadeira jardim de Iracema
Cuide bem da sua saúde e da beleza
porque hoje, o que vale é uma natural imagem
Um tanto quanto brejeira e muito mais amena.
Dê um trato nos rachões dos pés e nos calos dos teus dedos
com um pouco de querosene jacaré e creolina.
massageie as tuas ancas com uma emulsão de pedra-una.
Tire todos os cravos do rosto e a sujeira das unhas
com mináncura e uma faca de cozinha pontiaguda,
isso tudo instigará ainda mais a paixão que tenho
e minha libido ficará lá em cima, nas alturas.
Ficarei amarradão nas suas coxas e pernas cabeludas,
seus beijos lambuzados de manga
cheirando a peixe frito e óleo de pequi.
E todo o resto deste segredo que te aconselho
e de graça te indico,
só direi quando sozinhos no banheiro
ou no escuro do teu quarto.
Por último ainda,
corte a tuas unhas com a tesoura da costureira
não use esmalte apenas a loção de colorama.
não fume mais e nem masque fumo de rolo.
Troque seus brincos e pulseira
por um crucifixo barato e milagroso
de padre Cícero e Nossa Senhora das Dores
comprados por um pechincha
na subida das escadas do horto de Juazeiro.
Não raspe seu pêlos, naturais,
eles são tão bonitos - eu acho.
apenas lave-os bem
de modo intenso e demorado
deixe-os sedosos com aquele cheiro
de sabão de coco,
vendido às pampas no balcão da bodega
de seu Nonato.
Quem se ama se cuida assim - eu te digo.
Eis a mulher que todo homem verdadeiro,
e 'inteirado' como eu, ama, deseja e sonha
para toda a sua vida.
Por fim, não coma nada carregado
quando estiver naqueles dias de vermelho.
Por fim, escute no domingo na missa,
todo o sermão do santo padre
mas não esqueça,
numa distância segura
que eu sempre te veja.
.........................

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Fotos: Da Internet(Arquivo Nirez)