sábado, 25 de agosto de 2012

POESIA...


O sertão que tenho em mim*

Tenho desde muito o sertão em carne viva
como um coração valente pulsando em minhas mãos.
Fera arisca adormecida
que não se acalma e não me dá trégua.
Tenho desde muito em mim o sertão.
Esta vontade incontrolável de carregar comigo
onde quer que eu ande.
Bichos, matos e riachos.
Estórias de trancoso, causos e assombração.
Gente valente que não tem medo.
Fartura das invernadas daquela região.
Rara beleza que me encanta.
Poesia matuta de Bandeira, Serra Azul,
Bil Pereira, Zé Limeira e Patativa.
Canções de Gonzaga.
Cheiro de flores brejeiras.
Comidas tipicamente sertanejas,
arte e festa,
cultura nativa...
Donzelas bonitas
Repente dos violeiros poetas
do meio das feiras.
Relembranças de um sertão
que sempre carrego
em minhas mãos.

.........................................
José Cícero -
in Minhas Metáforas Prediletas(Inédito)

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Foto ilustrativa: JC árvore do sítio Cangica de Aurora.

domingo, 29 de julho de 2012

ANO 2013 - 120 ANOS DO NASCIMENTO DO POETA SERRA AZUL

NATUREZA RITMADA

Inconfundível com os demais poetas, sua poesia é de cunho cientifíco- filosófico, não cultivado no Brasil. Seu livro“Natureza Ritmada” é prova disto e “Versos Bucólicos”, uma continuação do gênero predileto. Seu 1º livro publicado“Alfabeto das Musas”, exaltando nomes de mulheres fictícias, tem mais filosofia que lirismo ou devaneio amoroso.
De alma jovem e vibrante, amava a mocidade, instruindo e estimulando-a, pois tolerava e até exaltava as produções que tivesse conteúdo, pureza de linguagem e sentido compreensível.Sua emotividade é extrema e a facilidade com que elogia obras da natureza,esmaga meio mundo quando verbera os defeitos sociais. Referenciamos aqui,sua vida e sua obra, que encerram particularidades tão complexas, seu caráter e independência de espírito, suas atitudes, sua moral inquebrantável na pureza de costumes e persistência na busca de conhecimentos e sua bondade.
Obras: Alfabeto das Musas, Natureza Ritmada, Versos Bucólicos, Reflexões de um Rebelado, Cronologia de Homens Ilustres e trabalhos inéditos.

PRIMEIRA PARTE

ALFABETO DAS MUSAS

(Glorificação das letras do alfabeto)

ALICE

...E enfim não houve céu que eu não subisse,
Campos de flores que eu não percorresse,
Mares e abismo a que eu não descesse,
A ver se achava o que imitasse Alice

Cheguei ao mar e a pérola me disse:
- "Quem sou eu? Ah! Se tal me parecesse!"
Nem houve flor que inveja não tivesse
Nem estrela que ciúme não sentisse.

E na jornada espiritual que à face
De tudo andei, niguém achei que fosse
Digno de que com ela eu comparasse.

Não encontrei, nem encontrei quem visse
Formosura no mundo como a doce,
Cheia de graça e angélica de Alice.

(Nota:-
Este soneto tem a particularidade de ter as rimas
em isse, esse, asse (ace) e osse (oce). Rimas heterofônicas
no segundo quarteto (parecesse/tivesse), apesar de
homográficas. É um exemplo de prosopopéia.
O primeiro verso do primeiro terceto é um
exemplo de mesodiplose.)
* * * * *
BEATRIZ

É mais formosa que a Beatriz do Dante
Porque, se aquela fosse assim tão bela,
O poeta não teria tido aquela
Visão de inferno e glória ao mesmo instante.

Porque quem vir Beatriz, estou que cante
Somente a glória que ela, em si, revela.
E só poderá ver inferno adiante
Ou purgatório, estando ausente dela.

Assim para a beleza ser completa,
É preciso ter na alma a formosura
Que se ajuste à dop corpo em linha reta

E esta beleza da alma se apresenta
Em Beatriz, na virtude e na ternura
De que a beleza dela se ornamenta.

(Nota:- Dante, autor da Divina Comédia,
que foi guiado por Beatriz. Alusão e ironia,
figuras de pensamento).
* * * * *
CARMEN

_"É tarde! -exclamam os altivos montes...
E Carmen não saiu com seus fulgores,
Para banhar de luz nossos pendores,
Mudar em ouro as lágrimas das fontes!"

A árvore, a rocha e os animais, as frontes
Curvam, dizendo; _ "Onde ela está, pastores?
_Quem vem trazer o aroma para as flores?
_Quem vem pintar de rosa os horizontes?"

Há pelos ramos módulas endeixas.
Chora o bosque, saudoso, e, ao mesmo instante
Soam, na selva, sonorosas queixas...

Mas, enfim, ela chega e tudo cora
Perguntando; _"Onde estavas, doce amante?
E ela, sorrindo; _"Eu acordei agora!"

* * * * *
DOLORES

Irmã gêmea do dia que esmaece
Com os últimos lampejos do sol-poente,
Ela se evola, à proporção que desce
A terra, a noite lúgubre e silete.

A impressão que deixou seu vulto ausente,
_Semelhante à expressão que transparece
Da Virgem Dolorosa, _inspira ao crente
A contrição o sonho, o anseio, a prece...

Onde ela não passou, a sombra errante,
Estão a germinar crimes e horrores,
O vício, a morte, o mal, a todo instante...

Mas quando a aurora surge em seus albores,
A luz com um riso etéreo e deslumbrante,
Segue, beijando os rastros de Dolores.

* * * * *
ELOÁ

Foi na hora que Jesus ao céu subia
Que Eloá de uma lágrima nasceu,
Das lágrimas vertidas por Maria
Na mesma noite em que Jesus desceu.

Como no oceano a pérola nascia
Das lágrimas de dor que o mar verteu,
Assim, na dor que à Mãe de Deus feria,
A pérola Eloá do céu desceu.

Por isso é que ela, na Semana Santa,
Não quer aparecer, não ri, não canta,
Na sua religiosa solidão.

E porque ela se isola, a Natureza,
No mundo espalha universal tristeza
Por toda Sexta-Feira da Paixão.
* * * * *
FLORIPES

Quem dos Pares de França ouviu a lenda
Sobre quem teve o nome assim, que um dia
Um deles desposou, talvez entenda
Que eu fale dessa flor da Alexandria.

Não é, porém, nem de outra que estaria
Lá. Digo para que ninguém empreenda
O plano de, atualmente, ir à Turquia
Ser o Gui de Borgonha da legenda.

Que o brasão dos antigos cavaleiros,
Alcança mesmo sem brandir a espada
Do incrível Roldão ou de Oliveiros.

Aquele que auferir a alta ventura
De vê-la aqui, mais bela que a sonhada
Floripes, que na fábula figura.

(Nota:- Floripes, amor de Gui de Borgonha,
um dos doze Pares de França, como
Roldão ou Oliveiros)

* * * * *
GUIOMAR

_"Guiomar! Guiomar!" Em todo som que havia
Na voz do vento e na amplidão infinda
Do mar, que o mesmo nome repetia,
Foi o que ouvi naquela noite linda

_"Guiomar! Guiomar!" Repete o oceano aínda
(Pois é ela, que o embelece e o acaricia,
Cuja luz suave o torvo aspecto alinda
E muda o triste pranto em harmonia)

Ele, que chora sempre eternas mágoas
Freme, e, logo que a encara, à flor das águas,
Um gozo extremo do último revela...

E a causa - ao lhe indagar _(que sempre o dome
A causa!) faz-me ver que é de seu nome
Ser a terminação do nome dela.

* * * * *
HELENA

Quem viu da Arcádia a história da princesa,
Filha de Leda e Tíndaro, não diga
Que falo da que foi raptada e presa
Por Páris, _causa da troiana intriga

Falo da que, por mágica estreiteza,
Á formosura helênica se liga
Com o mesmo nome e a heráldica beleza
Que era a graça e o esplendor da Grécia antiga.

E é superior à bela grega! É pena
Não ter agora como bela Helena
Os poetas e os pintores que a endeusaram!

Falta a lira pagã de Homero, agora.
Faltam os deuses que a celebrizaram
Na arte, no amor, na estética de outrora.
(Nota:- Alusão à Helena de Tróia)

* * * * *
IDILVA

Idilva, arcanjo ideal, criança loura,
De róseas faces, lábios purpurinos,
Tem traços celestiais e alabastrinos
De Angélica visão deslumbradora.

O áureo esplendor de seus cabelos finos,
Embaça a luz do luar e o sol desdoura
E, com seus olhos meigos e divinos,
Deslumbra a própria Vênus sedutora

Onde ela passa, ofuscam-se os fulgores
Do sol; obumbra-se o verdor do prado;
E festejam-na os pássaros e as flores.

E um cortejo de estrelas que a acompanha,
Se apaga, enfim, por tê-las ofuscado
O sol, dourado os cimos da montanha.

* * * * *
JULIETA

Tudo, ao vê-la passar, se ajoelha e reza
Pois, de segui-la, tudo tem desejo
Aonde quer que ela vá. No entanto vejo,
Que, por modéstia, tudo ela despreza.

Se é dia, o sol com reverente beijo,
Imprime o amor em toda a Natureza;
Se é noite, a lua vem com seu cortejo
De estrelas, sob o céu cor de turquesa.

Seus encantos, só sabe decantá-los,
Quem, às mãos, sustiver a harpa do vento,
Quem, dos astros, tiver na fronte, os halos.

Decantá-la, um mortal, que atrevimento,
Se ela é raimha de quem são vassalos
O vento, a luz, o mar e o firmamento?!
* * * * *
KORA
Kora com K? Por que razão escreva
Assim, não sei. E, ao mesmo tempo, julgo
Que sendo a mais ideal das ilhas de Eva,
Queira, em tudo, ficar fora do vulgo.
_"Este exotismo pelo ideal promulgo!"
Diz-me ela ao lhe indagar. E a crer me leva
Que alguma cousa gótica divulgo
E alguma cousa jônica me enleva.
Emblema de três raças, deste modo,
Mostra o gênio de um dórico e de um godo
Com a castidade das donzelas sírias...
E a se banhar no seu olhar sereno;
Julgo ver em Castália ou ver no Reno,
Antiga Deusa ou uma das Valquírias.
* * * * *
LAURA
Quem a veja não há (ditosa e santa,
Porque está muito longe de imitá-la
A própria Laura, a quem Petrarca canta)
Que não deseje, então, para exaltá-la.
Ser, com fogo na voz que se levanta,
Doce e mavioso rouxinol que fala
E com voz de sereia na garganta
Novo Petrarca, enfim, para cantá-la.
Do alto as estrelas curvam-se radiosas
Magnetizadas pela maravilha
Momentânea das faces luminosas
Com que seduz a todas, pelo espaço,
Mostrando um sol em cada olhar que brilha,
Movendo um claro céu a cada passo.
(Nota:- Alusão ao amor de Petrarca.
A chave do terceto final conclui com
duas belas metáforas, com a anáfora,
figura de repetição.)
* * * * *
MARGARIDA

O nome da margarida figura nos dicionários com várias
significações poéticas:
a) nome próprio de mulher;
b) no reino vegetal - nome de uma flor;
c) no reino animal - nome que dão à pérola extraída da
concha marinha;
d) no reino mineral - nome de uma pedra preciosa.

Entre Rosa, Violeta e Margarida,
Ninguém soube, jamais, dizer qual era
Das três, a flor que mais enfeita a vida
Cada qual, no seu gênero, a exagera.

Creio, porém que, sobre as mais, impera
A última, quer no lar, quer na avenida,
Nos campos, nos jardins. Se alguém duvida,
Bem pode se informar da Primavera.

Ela, enfim, representa a Natureza
Em seus três reinos dividida . Em fina
Pérola, no animal se representa.

Prende-se à flor e à gema que se ostenta
No mineral. E em tudo, assim, domina:
No perfume, no brilho e na beleza.

(Nota:- A nota inicial do Poeta se desenvolve
como num epânodo (figura de repetição), com
fina ironia no 4° verso do 2° quarteto).

* * * * *
NAÍDE

Não sei bem se Naíde se chamava
Ou Náiade, porém, com perfeição
Me lembro que o seu nome principiava
Com a mesma letra com que escreves - Não!

Sei que aos seus pés o mundo se prostrava,
Como a implorar promessas ou perdão
E após a Natureza me contava
O segredo da própria confissão.

Era todo o Universo apaixonado
De Náiade ou Naíde aos pés prostrado.
Com quem chora aos pés de um confessor.

E embevecido em sua formosura
O mundo todo em luz se transfigura
Numa perfeita confissão de amor.
* * * * *
OLGA

Olga!... Aos ditosos ares onde assume
Tua figura angélica e dourada.
Pensa-se ver um cisne de Prudhomme,
Quando, num lago azul, cantando, nada,

Deus fez o céu de forma arredondada
Como a indicar a letra do teu nome
E a todo sol na esfera constelada,
Manda, também, que a mesma forma tome!

Prevendo o teu encanto, a Natureza
Traçou elipses ou circunferências
Em tudo quanto fez grande no mundo.

E para harmonizar com tal beleza
Com a mesma letra Deus faz reticências
De luz e de astros pelo azul profundo.
(Nota:- Prudhomme, poeta parnasiano francês)
* * * * *
PALMIRA

No manancial que diariamente espera
A uma hora certa o banho de Palmira,
Ouve-se o sol dizer: _Ah! Quem me dera
Ser essa fonte! E a fonte então suspira.

-"Antes quisera ser o sol que gira
Na altura, a vê-la em tudo da alta esfera!"
(Pois que Palmira uma hora só a inspira
Durante vinte e quatro que a lacera!)

Diz a floresta: -"Quero ser a aurora"!
A aurora diz: -"Quisera ser a escura
Alcova, que com sua luz se aclara!"

Murmura a luz: -"Que querem mais agora?"
Aurora, sol, floresta e fonte pura,
Como se fartarão com luz tão rara?!

(Nota:- Rimas em era, ira, ara, ura e ora)
* * * * *
QUITÉRIA

Por que o teu nome é feio, não se deve,
Todavia esquecer tua beleza
Pois que, com esta letra, não se escreve
Um nome belo em língua portuguesa.

Basta ser bela, para o nome, em breve
Transformar-se em brasão de alta nobreza.
Pelo que, não existe, com certeza,
Um nome de mulher que não se eleve.

Como a noite que horror nos anuncia
Mas o clarão do luar e das estrelas
A faz cheia de encanto e de poesia,

O teu nome, Quitéria, teve a sorte
Daquelas noites que se tornam belas
Com as auroras boreais no Polo Norte.


(Nota:- Quitéria começa com a letra "Q",
permitindo ao Poeta glosar o "que" de
diversas maneiras: no 1° verso - por que;
3° verso - pois que; 7° verso - pelo que;
8° verso - que não se eleve; 9° verso
- que horror nos anuncia; 13° verso
- que se tornam belas).

* * * * *
ROSA

Com as rosas da saúde que florescem
Nas pequeninas mãos, na face pura
E outras que em seus cabelos de ouro tecem
Uma auréola de rosas que fulgura

Na fronte, um véu de transparente alvura;
Vai para a igreja. É noiva. Os anjos descem
E, com as capelas de ouro, lhe oferecem
Todas as rosas dos jardins da Altura.

Mas ninguém me pergunte quem seria
Esse noivo feliz, porque, tal dote,
Só mesmo um Ser Divino o merecia!

Pois que todos a viram, ajoelhada,
Recebê-lo das mãos de um sacerdote
No ministério da Hostia Consagrada.
* * * * *
SARA

Na noite em que a exalcei, aos céus erguia
A vista, e via em festa o firmamento
Do assento de uma estrela para o assento*
De outra estrela que além folgava e ria.

Um milhão de girândolas subia,
Soava na altura mágico instrumento
E buscando eu saber por que seria
Tanto alvoroço, pela voz do vento

As estrelas, com frases comovidas
Nun claro gesto de alegria pura
Me dizem sumamente agradecidas.

_ "Em louvor do teu verso que compara
Nossa apagada e mísera leitura
Com a imagem bela e cândida de Sara".

(Nota:- Mesoteleuto de assento e mesodiplose
de estrela nos versos 3° e 4° (fuguras de
repetição).
* * * * *
TEREZA

Esta, por quem se esmera a Natureza
Em conserva-lhe um duplo encantamento,
Ergue à feição humana, um monumento
Moral em toda a sua singeleza.

A luz da graça e do aperfeiçoamento,
_Tesouro de virtude e de beleza
_Mostra também, os dotes do talento
Como assim se ilustrou santa Tereza.

Tal como Júlio César se decide
A imitar Alexandre em sua glória
E que mais tarde o fez assim, progride

Tereza tendo sempre de memória
A Santa de seu nome que preside
Seus atos, quer na vida, quer na História.

* * * * *
URÂNIA

Um dia Urânia veio à terra e após,
Apolo fala e ordena à maior parte
Dos grandes deuses que de toda parte
Acordem, todos, à apolínea voz:

_"Que ordena o meu senhor?" _"Vá um de vós
Atrás de Urânia que fugiu!" Desfarte,
O mais violento que é o guerreiro Marte,
Resolve, então se aproximar de nós.

Mas Netuno, Saturno, Urano, Vênus,
Mercúrio, Jove, grandes e pequenos
Deuses fazem a Apolo objeções:

Que, como Cristo viera noutra idade,
Ela viera ensinar à humanidade
A estrada de ouro das constelações.

(Nota:- Soneto mitológico.
Urânia é a Deusa da Astronomia.)

* * * * *
VIOLETA

A um enxame de abelhas e falenas
Com que o aladomSísifo no ar se cruza,
A Primavera reúne as filhas, plenas
De orvalho, _o vinho que entre as flores se usa.

_"É o natalício de uma que se acusa:
E és tu, Violeta, que entre nós ordenas
E que sucesso tal se reproduza
Sempre, por Flora!" _dizem as verbenas.

Como uma deusa entre as irmãs formosas
Recebe abraços, parabéns e beijos
De açucenas, de lírios e de rosas...

E Violeta, apesar de ser humana
Para acender das outras aos desejos,
Ficou sendo das flores soberana

* * * * *
WALDA

Nasceu talvez num dia em que no Reno
Lançasse o sol o disco avermelhado;
Pois que mostra com algo de encantado
Visor de fada no seu porte ameno

Seus olhos têm a cor do céu sereno
O seu cabelo é um nimbo de ouro ondeado
E o próprio chão se orgulha em ser pisado
Pela alva planta do seu pé pequeno.

Da sua voz o timbre lembra o coro
De Eurídice, ao compasso de uma orquestra*
Por ágeis mãos tangida em liras de ouro

Mas o que mais me atrai na doce Wanda
É o nobre aspecto de guerreira destra
Que abate os leões nos reinos de esmeralda
(Nota:- *Mitologia. Eurídice, mulher de Orfeu.)
* * * * *

XIMENA

À Grécia, outrora a combater os males,
Vieram Pítacus, Bias e enfim os sete*
Filósofos que a História aínda repete
_Sólon; Mison, Quilon; Periandro, Tales.

Com a mesma origem veio aos nossos vales
Ximena, tendo em cruz, um ramalhete
De flores, que lhe ofertam, num banquete
Todo o essencial licor que tem no cálix

Quando ela surge, animam-se os verdores
Em seu louvor, na música do ninho
Voam cantando, alados trovadores

Em cada ramo canta um passarinho
E o vento a segue sacudindo flores
Pelas areias brancas do caminho.

(Nota:- O Poeta relaciona os 7 sábios
da Grécia Antiga.)
* * * * *
YÊDA

É uma incógnita algébrica a figura
Dessa deusa oriental de estranho porte
Como o Japão, de exótica postura
De água e vulcões é um lírico recorte

Mais que as outras se mostra altiva e forte
Na arte das construções e arquitetura
Que à guisa de pilar ou de suporte
Sustem os vigamentos da estrutura

Tem a forma da lira e os esplendores
Dol sol, na voz a célica harmonia
Como que a musicar as sete cores

Do arco-íris que a seus pés mostra a leveza
De um sonho a parecer que se extasia
Em ascensão a própria Natureza.
* * * * *
ZAÍRA

Não, Não* seja eu com minha musa calma
Quem cante os dons de tão divino ser,
Que o poeta, enfim, que há de levar a palma
Porque os cante, está aínda por nascer!

Tenho apenas a idéia que me encalma,
Quanto à expressão ou modo de dizer,
São os versos que ficam dentro dalma
E não poderei nunca os escrever!

Nem mesmo o esboço posso dar do sumo
Encanto de Zaíra que é o resumo
Dos céus nos seus eternos apogeus!...

Entidade divina e soberana
Que não é feita da matéria humana,
Mas do Éter e da Luz, por mão de um Deus.

(Nota:- Repetição enfática do não, epímone).
* * * * *
À CARMINHA

Penélope, rainha da Ítaca e mulher
de Ulisses, a fim de se ver livre de seus
Inúmeros requestadores tecia de noite e
desmanchava de dia o trabalho, com que
havia de presentear o sogro, para, conforme
o costume antigo, obter a licença de contrair
núpcias como viúva, que se supunha, na
longa ausência de seu esposo.
(Da Ilíada)

Penélope moderna, meiga e pura,
Tipo modelo, quando aínda é comum
O delito social que aínda tortura
Os Ulisses do século vinte e um!

Na ausência do homem que a ama, homem algum
Jamais vê com maldade, que a ternura
De seus afetos, se concentra num
Culto de amor que só no lar se apura.

Sem estar sempre e urdir e a desmanchar
A inacabável teia que arma e incita
Falsos amores contra o amor do lar

Cerra-se na virtude, como flor
Que se não mostra ao mundo, mas imita
O amor perfeito, no perfeito amor.*

(Nota:- Epanástrofe: o amor perfeito,
no perfeito maor (figura de repetição -
repete o mesmo final no sentido inverso.)
* * * * *
O QUE REPRESENTAM AS MUSAS

ALICE - A beleza inatingível.
BEATRIZ - A beleza perfeita.
CARMEM - A luz matutina.
DOLORES - A luz crepuscular.
ELOÁ - A beleza mística.
FLORÍPES - A beleza legendária.
GUIOMAR - O luar na praia, a lua.
HELENA - A beleza heráldica.
IDILVA - Os raios do sol sobre a montanha.
JULIETA - O conjunto das belezas naturais.
KORA - A beleza excêntrica.
LAURA - A beleza das águas correntes e límpidas, refletindo o céu.
MARGARIDA - A beleza nos três reinos da natureza percebida.
pelo perfume da flor e pelo brilho da rérola e da gema.
NAIDE - O nascer do dia, a alvorada.
OLGA - A beleza das noites estreladas, dos astros.
PALMIRA - A beleza fugitiva e alternante das cousas, em face da luz.
QUITÉRIA - Auroras boreais aformoseando as feias solidões polares.
ROSA - A inocência e a candura.
SARA - Os meteoros, a luz e os sons em espirais.
TEREZA - A moral (personificação).
URÂNIA - Como sempre, a astronomia. É a musa que fugiu do
gêmio das Apolo para o das do "Alfabeto".
VIOLETA - A primavera e as flores.
WALDA - Valquíria de Vagner.
XIMENA - Os perfumes, os gorgeios e as carícias suaves do vento.
YEDA - A arquitetura, a música e as cores.
ZAÍRA - Entidade cósmica. o éter. Força cósmica ou divindade
dirigente das forças da natureza.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * *
(Obs.: As notas são de Henriques do Cerro Azul, filho do autor).
Fonte - Blog: de Valéria Serra Azul in http://valeriaserraazulalbuquerque.blogspot.com.br/

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um Poema ao Dia do Escritor...*

Um brinde ao dia do escritor

Palavras... Palavras.../
e mais palavras.../
Pássaros ousados e altaneiros/
que me dão asas/
me elevam e me transportam/
além de mim/
e dos meus sonhos em flor.../
Utopias da minha própria alma./
Eterna Linguagem/
em que me fortaleço.../
e permeneço bem alto/
porém à margem de mim mesmo./
Vôos além do Nebo/
e tão sem medo./
Remédios, lenitivos e refrigérios/
para a minha dor.... /
Instante eterno./
Célere e efêmero/
Versos superlativos/
que grito/
e desde então carrego/
junto ao peito./
Fugas momento de felicidade/
que vez por outra sinto,/
enquanto escrevo/
e me liberto/
dos grilhões do mundo./
Cálice de absinto/
que bebo, saboreio/
e me embriago todo/
neste dia consagrado ao escritor. 
Mesmo que solitário,
esquecido
e abandonado
Tanto no que sou
enquanto indivíduo,
quanto naquilo 
que de fato  escrevo.
-----------------------------------------
José Cícero
Aurora-CE.

jc (Inédito) 25.07.12

LEIA MAIS EM:

FESTA DA AFA: 'Remember me' in terceiro Baile da Saudade

Por José Cícero*

Foi tão magnífica a apresentação dos Trepidant’s durante o 3º Baile da Saudade na noite do último sábado(21) em Aurora que, a bem da verdade e, notadamente por um dever de justiça, diria que apenas uma referência noticiosa não seria o bastante para dizer de toda a emoção e do contentamento provocado em todos os que tiveram o prazer de participar do evento organizado pela AFA.
Os irmãos pernambucanos do Recife estavam por assim dizer, numa noite das mais inspiradas e mesmo sem seu líder maior, Vicente Jr - agora em carreira solo, o grupo recifense realizou uma performance deveras impecável. Antecedido que foi pelo bom forrozeiro Diassis Martins que igualmente fez ótima apresentação.

É certo dizer, no entanto, que Os Trepidant’s pelos estrondosos sucessos que emplacou no passado de gerações inteiras, dispensaria qualquer comentário a mais, sobretudo de feitio saudosista ou algo mais que o valha. Porque são poucos os que não recordam das suas músicas, tanto em inglês quando no idioma pátrio. O que nos levaria inapelavelmente também aos Pholhas, Carbonos entre outros que investiram como êxito no mesmo gênero musical. Hits inesquecíveis do naipe de 'Remember me', San Francisco River, My flaming Love, Everytime, dentre outros. E apenas para não ser injusto, as mais recentes dos anos 80 como Vadiar, Lua dos namorados, Foi demais etc.

Contudo, por oportuno, refiro-me exclusivamente a forma pela qual a banda(noutros tempos chamaríamos de conjunto) se apresentou em Aurora. O que decerto, não precisaria de mais nada de acréscimo. Porém, quem esteve lá teve o raro prazer de conferir um show dos mais primorosos com direito a ouvir e dançar outras canções de grupos internacionais e brasileiros que marcaram época, além de Pholhas, Renata, The Fevers apenas para citarmos alguns dos anos 60, 70 e 80.
A apresentação dos Trepidant’s não nos alegrou apenas pela performance da noite, que diga-se de passagem – foi algo impecável e irretorquível. Mas, sobretudo e principalmente pela constatação inequívoca de que o bom-gosto musical ainda sobrevive, mesmo a duras penas, não somente nos que tiveram a felicidade de curtir a banda nos anos áureos da sua carreira, mas inclusive junto aos neófitos da atualidade(leia-se os jovens). Na festa de sábado, foi possível percebermos isso diante da emoção e do contentamento de todos os que estiveram no clube das samaritanas. Algo que nos anima a acreditar que a música boa do Brasil não haverá de morrer tão fácil diante da avalanche atual do forró descartável, pobre, antipoético, criminoso e imoral. Assim como de um outro pseudogênero, que talvez por absoluta falta de um nome – o chama de sertanejo universitário e por aí vai. Modismo que como tantos outros que já surgiram haverá de passar igualmente sem deixar nenhuma saudade.

A emoção contagiou a todos diante do repertório apresentado naquela verdadeira noite de gala. A boa aceitação verificada também junto a juventude presente, representa um bom sinal, além de uma prova de que não se pode gostar daquilo que não se conhece...
Como nos velhos tempos, como a partir de agora e daqui para frente, afinal de contas como é comum também na música – Nunca é demais sonhar. Manter acesas as chamas das esperanças, relembrar os momentos idos, matar saudade e acreditar na utopia de dias melhores, dado que a poética musicada também nos serve para isso. Por fim, diria que após termos ouvido, cantado e dançado pra valer com as músicas dos Trepidant’s, também saímos do Baile da Saudade um pouco mais felizes, contentes, animados e rejuvenescidos, inclusive espiritualmente...
Parabéns a todos da AFA pelos dois dias de maravilhosas comemorações festivas. Algo que muito valoriza ao passo que engrandece toda a sociedade aurorense. Pena que a vida passa célere como ventos a carregar nossos momentos para a eternidade. De modo que agora, tudo já passou a ser saudade...
Parafraseando a inesquecível canção dos Trepidant’s, direi apenas - Remember me! E que nos venha o quarto encontro dos filhos e amigos de Aurora em sua versão 2013.
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José Cícero
Secretário de Cultura
Aurora-CE.
Da Redação do Blog de Aurora e do site Cariri de Fato

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COMENTÁRIOS DO PROF. LUIZ DOMIMGOS DE LUNA -

Gostaria de deixar claro para o povo de Aurora que o professor José Cicero da Silva é um defensor intransigente da cultura, da literatura e da civilidade aurorense. Militou no nascimento da internet para a divulgação primeira, da Terra do Menino Deus o que fez com brilhantismo e Maetria, Criou o jornal Enfoque Municipalista danto cores ao processo educativo e político de Aurora como um fato social e histórico.
Publica o Senado Federal o livro de Poesias: Ecos da Saudade uma coletânea de poesias que engrandece a literatura poética brasileira, resgata em livro histórico e de sua autoria, a vida do Sindicato do Trabalha Rurais de Aurora pela passagem de seus 40 anos; Editor da 'Revista Aurora', Revista de cunho histórico e cientifico, hoje livro base para estudo da Igreja Rural Laica no Sitio Carro quebrado conhecido pelo nome de cemitério da Bailarina.
Fez o tombamento do primeiro prédio feito em alvenaria na cidade de Aurora - Sobradinho do Coronel Xavier de Souza - fundador de Aurora. Resgatou as andanças dos penitentes da Ordem Santa Cruz sem excluir o rei do Cangaço Lampião.
Trouxe o Cariri Cangaço para Aurora, que verdade seja dita, antes de José Cícero, Lampião não versava em livros sobre as suas pegadas nas terras salgadinas e agora, no instante já, o lançamento do livro 'Abstrações do Acaso' mais uma pérola para a literatua poética da arte de fazer poesia no meu querido Brasil.
Prezado amigo e irmão como não tenho grandeza material para lhe retribuir lhe outrogo o titulo de Anjo de Luz guardião da história de Aurora.
De seu fiel amigo,
Luiz Domingos de Luna.
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terça-feira, 10 de julho de 2012

A Sociedade de consumo e o caos ambiental - Por José Cícero

A sociedade moderna encontra-se completamente envolvida pela vontade incontrolável de consumir sempre mais e mais... Os governos, inclusive, injetam invariavelmente grandes somas de recursos públicos na política de incentivo à produção de bens de consumo duráveis e não-duráveis como forma de aquecer sua economia e assim, produzirem divisas na geração e manutenção de empregos à população. De forma que, nos últimos anos este tipo de iniciativa governamental tem se transformado numa verdadeira panacéia do absurdo.

Do ponto de vista econômico, este tipo de intervenção tendo sido considerada algo positivo pelos arautos do grande capital. Uma medida das mais ortodoxas, contudo sob o prisma ambiental seus efeitos a longo prazo serão simplesmente desastrosos, para não dizer, devastadores no tocante aos recursos naturais do planeta. Basta ver os incentivos feitos no Brasil para a aquisição de automóveis e o grande show midiático e político-governamental acerca do pré-sal. Ora, se os combustíveis fósseis e os hidrocarbobetos são uns dos principais respnsáveis pela poluição ambienteal em todo o mundo, então é no mínimo um contra senso o oba-obra que se faz a tudo isso. E agora, após a realização da tão decantada Rio+20 é algo que não faz a não mais creditar na boa-vontade destes governantes em solucionar os graves problemas por que passa o planeta no que tange ao desequilíbrio climático, recursos naturais e a biodiversidade.
Os grandes investimentos na estrutura produtiva de qualquer país tem significado um aumento na utilização dos recursos naturais, além de um fator gerador de resíduos – o lixo industrial e doméstico que também vem se configurando como um problema dos mais complicados em todo o mundo.

Todavia, este tem sido, via de regra, um mecanismo econômico que por seus resultados aparentemente animadores postos em prática por quase todas as nações industrializadas, especialmente quando se avizinha um momento de crise e recessão. Um expediente em voga nos países que adotaram a chamada economia de mercado. Os que abraçaram o sistema capitalista globalizante que, aliás, compõem a maioria das nações do planeta.

E, diga-se de passagem, este modelo vem fazendo dos seres humanos verdadeiros cupins dos recursos naturais da biosfera, tanto os renováveis quanto o não-renováveis. A febre do consumo é por assim dizer, uma bola de neve. Uma bomba relógio prestes a explodir a qualquer momento. Para o qual a globalização tem contribuído e muito para um possível acirramento dos seus efeitos, daqui para frente num tempo recorde

O chamado sonho de consumo passou a ser quase uma regra de etiqueta, de vez que cada indivíduo (independente de classe social) terá que ter não apenas um, mas vários. Movidos que são cada vez mais pelas campanhas publicitárias, tanto quanto pelos incentivos governamentais e as facilidades oferecidas pelo mercado no quesito compras a prazo. Para piorar, tais consumidores estão sendo cada vez mais ousados e exigentes em suas preferências. Quem antes queria uma casa simples agora quer, se possível uma mansão. Quem pensava na adolescência numa bicicleta, agora deseja uma moto e, logo em seguida um carrão. E, mais recentemente tudo em duplicata. Hoje quando se planeja comprar ou mesmo construir uma casa, não se pensa primeiro na sala de visitar, mas na garagem do automóvel. O veículo automotor passou de vez a fazer parte da família como um ente dos mais queridos e desejados.

Há quem sinta, inclusive amor e ciúme do seu carro. Pessoas que se apegaram tanto a este monte de metal que não conseguem fazer mais nada longe do mesmo. A ponto do carro ou a moto terem literalmente se transformado num verdadeiro membro do seu próprio corpo físico. Conheço quem não consiga ir a padaria ao lado que não seja montado em sua motocicleta. Alguém que há anos não anda com seus próprios pés pelas ruas e calçadas da sua cidade. Aliás, não existe cena mais triste(sobretudo para os sertanejos) do que agora enxergar pseudovaqueiros a tanger seu gado sobre uma moto e por aí vão as aberrações...

No entanto, ninguém ao que parece não está muito lá preocupado com o debate acerca destas questões. Ou seja, das suas possíveis implicações sobre a natureza e a vida do planeta daqui para frente.

Ninguém parece querer saber sequer de onde é que vem toda esta parafernália de insumos a confecção dos produtos destinados à formatação de todos os bens que ora são colocados a noss disposição. Nem tampouco, para onde retornarão todo o lixo resultante da fabricação e depois, do próprio consumismo exacerbado e incontrolável a que todos estamos de algum modo protagonizando.

Mas, nenhum produto de consumo surge do nada como num passe de mágica. Tudo é retirado do meio ambiente, dos ecossistemas, portanto são recursos naturais na sua grande maioria esgotáveis, a exemplo da nossa principal base energética – o petróleo, de quebra, o grande vilão das emissões gás carbônico para o aquecimento global.

Porém, como a retirada e o descarte estão sendo, cada dia mais acelerados, a natureza já começa a dá os primeiros sinais do seu esgotamento total. A mãe Terra não está conseguindo fazer a reposição de tudo aquilo que vem sendo extraído numa rapidez absurda. O que deve ser igualmente acrescido a esta conta, o incontrolável crescimento do número de habitantes da Terra, que agora já extrapola a casa dos 7 bilhões de pessoas. E estas, todos os dias terão que suprir suas necessidades básicas.

Por isso é urgente que a sociedade planetária, sobretudo os grandes líderes mundiais, os cientistas, a mídia, os formadores de opinião comecem sem mais delongas, a instigar suas populações a consumir menos e de forma racional, como também a repensar seus antigos e atuais modos de atuação, suas atividades diárias, melhorando assim sua convivência em relação ao meio ambiente. Do contrário, em pouquíssimos anos o mundo entrará num caminho sem volta - o colapso total dos seus recursos naturais. Algo sem nenhum paralelo na história humana e das espécies de um modo geral.

Não há meio-termo. Teremos que parar agora. Visto que já estamos nos aproximando do ponto crítico como bem alertara o cientista James Lovelock. Estamos no ponto limite e daqui a pouco, tudo o mais será um caminho sem nenhuma possibilidade de retorno. Será o fim de uma era que culminará fatalmente com a catástrofe – a destruição em massa de todas as espécies biológicas da terra. E nós estamos fatalmente no centro desta extinção. Haveremos de conhecer o mesmo fim que tiveram os dinossauros há 65 milhões de anos.

Portanto, você, por exemplo, que nunca está satisfeito com o que possui agora. Que sonhou a vida inteira com a compra de um carro zero; que deseja uma casa nova e espaçosa toda na cerâmica, que aspira só vestir roupas de marca, juntar dinheiro na conta bancária, beber água mineral, lavar sempre o rosto com águia de coco, colocar uma TV em cada quarto e encher sua casa de eletrodomésticos de última geração. Você que só tem sonho de grandeza...

se perguntou por acaso, de onde é que vem tudo isso? Já pensou um pouco sobre a queima dos combustíveis fósseis? Sobre a sua parcela de contribuição para o aquecimento global, a poluição e a destruição dos ecossistemas terrestres? Já tentou se imaginar sem o seu bioma, na fome da África e nos primeiros refugiados ecológicos da história? Já tentou pelo menos refletir acerca das suas ações diante da perspectiva ambiental? Da necessidade de uma convivência responsável e harmoniosa com a natureza, assim como da importância da chamada sustentabilidade ambiental? Não custará nada ao seu bolso pensar um pouco sobre tudo isso.

Pois saiba que o pouco que se alerta hoje acerca da problemática ambiental, ainda não é nem um quarto do que realmente está por acontecer. A situação é muito mais dramática do que você possa imaginar. Estamos falando do fim do planeta Terra - nossa única morada disponível no universo. Portanto, da extinção das nossas vidas. E você acaso ainda acha pouco?

Contudo, se ainda acha que haverá tempo, eu pergunto: afinal de contas, que tipo de planeta você pensa em deixar para os seus filhos e netos? Pelo mínimo de coerência moral, teríamos que deixá-lo pelos menos como o recebemos um dia dos nossos ancestrais...

Sei bem que a falta de conhecimento, como a mãe de toda ignorância, tem provocado uma grande cegueira na maioria dos seres humanos. Tanto os ricos, quantos os pobres. No entanto, já estamos começando a sentir na própria pele os efeitos práticos do desequilíbrio climático, resultantes das nossas próprias atividades antrópicas.

Então, por que será que mesmo assim, você e a maioria dos seres humanos ainda permanecem indiferentes e anestesiados diante da iminência de todo este caos?
Por favor, pense nisso antes de terminar seu dia...

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José Cícero
Secretário de Cultura
Professor e pesquisador
Aurora – CE.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quando conheci Clarice ...*

Por José Cícero

Hoje pela mais pura curiosidade que vez por outra me atormenta a alma e o espírito, resolvi beber um pouco mais do transbordante cálice literário de Clarice Lispector. Vez que há algum tempo estava por assim dizer, abstêmio do seu inebriante absinto poemático. Razão pela qual acredito que psicologicamente o meu íntimo encontra-se famélico e sedento da suculenta escrita claricense.

Justamente agora no aniversário dos 35 anos do seu desencarne. Quisera eu saber da escritora que há muito impregna a minha alma, desde os meus idos estudantis, quando pela primeira vez na vida, tive a chance e a oportunidade de entrar numa biblioteca farta, algo a que não estava habituado – A coleção completa das obras da escritora.

Quando um mundo novo, surreal e fantasioso se abriu diante de mim em toda a sua infinitude astronômica. E lá estava ela, Clarice Lispector(quase que de carne e osso) com o seu inigualável sorriso um tanto quanto subliminar. Olhos de segredos e de mistérios. Um olhar de vidro como diria Carlos Drummond de Andrade. Quase uma esfinge a nos escavacar por dentro, gritando alto em seu silêncio em milhões e milhões de metáforas. E assim, ela rompia a minha timidez com sua lavra grandiloqüente num oceano incrível de palavras. Eu apenas não compreendia porque quase ninguém, além de mim naquele ambiente escolar queria saber da poesia de Clarice. De modo que era uma estranha, quase uma ilustre desconhecida até mesmo para os mestres...

Olhava seu retrato sob a capa daqueles livros amarelados de tanta espera. Seus olhos eram mais significativos do que seu próprio nome. Adornados ligeiramente por um belo olhar oblíquo caucáciano, mas que me metia um certo medo ao passo que me enchia de curiosidade e estranhamento. Desde então, tomei conhecimento que uma tal de Ucrânia existia em algum lugar do mundo, assim como a própria poetisa Lispector a crescer viçosamente no solo capibaribano do Recife nordestino. E que só depois de algum tempo se instalaria no chão fluminense.

Esquadrinhei seu rosto sisudo e quase marmóreo. Riso torto escondido, talvez pela sua maneira diferente de ser verdadeira e intimista além da conta. Olhos inchados, quem sabe pelas noites em claro gastas na tessitura dos seus versos. Ou ainda até mesmo, encharcados de fumaça dos seus intermináveis cigarros a se esvair por entre seus dedos. E eu olhava seu semblante diametralmente oposto a todos os olhares nordestinos. Russa feição de mulher que escreve e pensa a vida. Suave e pesada face do mistério literário e, através da qual não mais enxergava o nosso Patativa, nem Rogaciano, nem Juvenal, Cego Aderaldo, nem Bil Pereira e, tampouco aquele ceguinho Oliveira com sua Rabeca roncosa da feira das ruas do Juazeiro ainda a encher minha cabeça de lembranças, sempre quando alguém falava de verso, cordel e poesia.

Acho que Clarice foi a minha primeira paixão adolescente. Quem sabe um lenitivo psicológico na ânsia de puder amenizar a minha solidão de estudante quase abandonado no internato, sobre a serra do colégio agrícola do Crato. Minha admiração pela poetisa ia muito além da sua produção literária. Penso hoje que a minha imaginação não tinha fim. Ficava a ponderar como seria os beijos daqueles lábios. O afago das suas mãos. Sua voz, assim como o meneio dos seus canelos soltos ao vento das praias do Leblon... Clarice era de fato, uma paixão de menino a que a poesia me dera de presente.

De forma que, a partir daquele instante inusitado, era a mulher Lispector que tomava de conta do meu senso adolescente de leitor neófito e estudante. Um sonhador em seus devaneios sem tamanho que também se imaginava um dia fazer seus próprios versos e dedicá-los todos à Lispector.

Tentei naquele primeiro momento conhecê-la com a natural sofreguidão dos pequenos, mergulhar dentro dos seus olhos carregados de silêncio. Mas os olhos de Lispector eram profundos demais para o meu Eu menino diante das coisas do mundo. Um oceano imenso a ligar dois mundos eqüidistantes por uma variedade indescritível de sentimentos. Medroso e desconfiado demais das coisas escritas que vinham de longe eu me recolhia e chorava poeticamente por dentro.

Mas aquela escritora me seduziu ao extremo, ao ponto de me entregar a ela como um condenado que se entrega ao carrasco. Sorvi seus livros em infindos goles demasiados. E diria que ainda hoje, sinto-me por conta deles, assaz embriagado com a sensibilidade poética de Lispector.

Sentia um incontrolável desejo de devorar de uma vez por todas os seus livros. A Ucrânia agora era como o quintal de casa e o Recife o terreiro da frente. A poesia de Clarice me levava a isso – puro desvario. Por meio dos seus livros, ganhei o oco do mundo, como um cavaleiro andante dos céus montado nos contos fantásticos e nos poemas de Lispertor. Travesti-me de vez de dom Quixote e Sancho Pança. Clarice seria por fim, minha Dulcinéia. E desde então, nunca mais fui o mesmo. Posto que cresci enormemente quando a conheci em seus maravilhoso versos...
Virei gigante através da prosa e da poética daquela escritora fenomenal a quem muitos a definem como hermética e fria. Mas que eu absorvia em linguagem como ninguém, muito além dos imagináveis meneios poemáticos de mulher; musa poetisa que conseguira cantar em todas as suas dores e o seu silêncio literário os segredos da vida, as alegrias, assim como as tristezas do mundo, por meio do verso perfeito e de uma prosa ardente e fascinante.

Devo muito a Clarice. De modo que hoje, no aniversário dos 35 anos da sua morte clamo aos deuses da poesia que transmitam a Lispector toda a minha gratidão pelos seus escritos que me abriram os olhos para a vida e a mente para o imponderável existencial.
Informe:
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920. Morreu um dia antes de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro.
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(*) Prof. José Cícero
Secretário de Cultura
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terça-feira, 5 de junho de 2012

Ao Dia do Meio Ambiente: “Pinga” que te quero vivo...

Por José Cícero*
1- Cachoeira/Rio Salgado M.Velha. 2 - equipe: JC, Kledson, Bruno, Marx, Zuis e Wesley. 3- Equipe, 4 - idem.









Imagens da incursão à Cachoeira(rio Salgado) em direção a nascente do "Pinga" de M. Velha

Uma pequena análise sobre as ameaças que pesam sobre o Bioma da Cachoeira e a nascente do “Pinga” do rio Salgado em Missão Velha


Num passado não muito distante ele era tido como um local famoso – Uma nascente como tantas que noutros tempos abundavam pelo Cariri equilibrando a vida dos ecossistemas, em especial a vazão cotidiana do Salgado rio. Antes, toda a cidade pelos menos sabia da sua existência ao contrário do que acontece nos dias atuais. Visto ser ela uma das maravilhas naturais da não menos famosa e lendária Cachoeira de Missão Velha. Todos os habitantes o sabiam pelo seu nome natural de batismo sertanejo , ou seja: “O Pinga” da Cachoeira ou da Lapinha. Inusitada nascente encravada entre as rochas que margeiam o Salgado a quase uma légua do centro da cidade.

Um ‘olho d’água’ que outrora abasteceu com sua límpida e pura substância da vida boa parte da então pequena elite missãovelhense. De tão boas e ligeiramente azuladas, havia até quem apostasse que aquela água tinha suas propriedades medicinais. “Água boa de beber que inté dá pena de se gastar no lavar dos panos” costumavam dizer as antigas lavadeiras dos rios. Hoje decerto, a tal modernidade a chamaria simplesmente de “mineral”. A nascente também foi local de descanso para antigos caçadores e pescadores ribeirinhos.
Mas, infelizmente como se percebe, nenhum destas qualidades foram suficiente; pelos menos o bastante, para livrá-lo do atual estado de abandono e do imoral descaso no qual está relegado e submetido como que por castigo. Portanto, o que ora acontece com aquele bioma é uma tremenda e vergonhosa pervesidade.

Protegida por um conjunto de árvores altas e frondosas a nascente permanece ali calma e tranqüila como um anjo de Deus a olhar para nós pedindo clemência. Árvores na sua grande maioria antigas de troncos enormes com suas raízes sedimentadas sobre as rochas e os lajedos. Algumas espécies conhecidas, outras nem tanto. Muitas até frutíferas, há muito plantadas pelos que lá moravam, algumas delas nativas. Jenipapos, Oliveiras, Mangueiras, além de catolé, oitis, jatobás, cajá, imbu, pinhas dentre outras.

Um lugarzinho incrívelmente fresco e bucólico, fincado entre a caatinga e o chapadão do rio Salgado. Um magnífico paredão à direita do manancial mais parece uma fortaleza geológica. Deveras intransponível repleta de plantas nativas e samambaias, de ninhos de urubus e muitas outras espécies de aves só encontradas nesta região.

Foi uma visitação gratificante que fizemos neste final de semana o último do ano. De maneira que nos arredores do “Pinga” era como se estivéssemos todos protegidos por uma grande cobertura vegeral. Tamanha era a sombra daquelas copas imensas. Um mundo só de verde e clorofila prenhe do mais puro ar. O sol estava quase a pino e o calor daquela tarde era insuportável. Mas, na beira da nascente a sensação era completamente diferente. Um microclima aprazível marcado pela mais absoluta frescura dos ventos caririenses. Quem sabe, um ar-condicionado natural a que todos deveriam experimentar. Quem sabe assim, despertassem de vez para a importância da defesa e da preservação daquela maravilha. Uma das mais autênticas expressões de Deus na terra...

Nos anos idos, era comum encontrar pelas veredas daquelas matas um certo senhor sertanejo, agricultor de pele escura quase tostada pelo sol. Um exímio tangedor de animal – morador do local e cuidador do lugar, a conduzir sob o lombo do seu jumento duas ancoretas contendo o precioso líquido do “Pinga” para os potentados da cidade, principalmente o Dr. Raimundo Alves antigo proprietário do terreno onde a pequena nascente está localizada. Do meu tempo de menino(até hoje), nunca me esqueci daquele homem ‘estradeiro’ a caminhar com seu asno todos os dias, pacientemente nas suas idas e vindas a levar a água do “Pinga da Lapinha” para a cidade. Um verdadeiro "Prometeu" dos sertões do mundo entregue por inteiro a sua sina. Uma lida que parecia nunca mais ter fim.

Devido a distância e a dificuldade do acesso ao local cercado de mata quase fechada e de um solo acidentado e pedregoso, não era barato a carga d’água do “pinga”. De modo que, bebê-la em casa era, por assim dizer, quase um luxo e, para poucos(diga-se de passagem). A água do velho “pinga” da cachoeira era equivalente a “mineral” a que todos consomem com facilidade agora. Algumas delas vindo de muito longe e até de outros estados nordestinos. Hoje contudo, o ‘pinga’ perdeu o seu antigo valor para a maioria. Caiu no anonimato da história. Ficou esquecido. E aos poucos está sendo engolido e devorado pela pressa e o imediatismo de uma geração tida como moderna dos três “is” - ignorante, insensível e indiferente, notadamente às verdadeiras riquezas que a mãe natureza nos legou ao longo da história humana.

Mas, por incrível que pareça a fonte do “Pinga” não morreu. Posto que ainda mantêm o seu antigo encanto. Está lá tranqüila e silenciosa como um cristão da vida resignado com o sofrer do seu destino. Vivendo toda a sua solidão, cochilando sobre os imensos lajedos que margeiam o Salgado, desde o "goelão" das belas quedas d'águas. No entanto, é preciso tem olhos para vê-lo e coração sensível para senti-lo na sua intreguidade. Do contrário, só restará uma imenso vazio. O “Pinga” não morreu, mas corre risco de morte, caso permitamos que o seu sofrimento se prolongue além do suportável.

O abandono do campo também feriu de morte o velho “Pinga”. Ninguém mora mais por ali, isolado, distante de tudo onde sequer a eletricidade dera o ar da sua graça. A única residência ( a chamada Casa de Pedra) que lá existiu; agora por mais de duas décadas encontra-se abandonada, destruída pelo tempo, caindo aos pedaços. As matas tomaram conta de tudo, como se quisessem de volta aquilo que os homens tomaram-lhe um dia e não se deram sequer ao trabalho de preservar para às futuras gerações. Simplesmente por não “saber cuidar” de quase nada que não seja por poder e por dinheiro.

O teto da casa desabou. Contudo, algumas das suas antigas paredes de pedra e barro ainda se mantêm de pé. Apenas o velho pé de imbu insiste em resistir ao desprezo dos homens e o intemperismo do tempo, com seu aspecto verdejante e seu grosso tronco enrugado a rolar pelo chão como uma serpente enorme. Quem sabe, a nos mostrar que de fato, toda a veracidade da máxima euclidiana de que “ o sertanejo é antes de tudo um forte”.

Porém, não é apenas o “pinga” que está a correr sério risco de desaparecer. O bioma da caatinga em seu entorno, assim como todo o manancial da Cachoeira e do rio estão sob a mira do tiro de misericórdia. O fogo cruzado da destruição desenfreada em nome do capital. Há sinais de degradação dentro da mata. Clareira e derrubadas, veredas rasgadas por máquinas e explosões dos lajedos para a retiradas de um tipo pedra ali existente bastante requisitada para as modernas construções citadinas. Assim como atalhos e caminhos feitos pelo gado bovino criado como que à solta, embrenhado na caatinga da cachoeira de Missão Velha.

Mesmo assim, felizmente ainda é possível se ouvir o canto de pássaros silvestres, árvores endêmicas frutificando e outros bichos daquele nicho ecológico. Fauna e flora insistindo na sua antiga e necessária harmonia natural. A se perpetuar desde os tempos imemoriais. De modo que aquilo tudo junto nos invade os olhos, os ouvidos, as narinas tocando a nossa pele como se fosse um afago de Deus deixando em nós um pouco do perfume dos arvoredos e o benfazejo refrigério das águas. Ao ponto de pensarmos como nos velhos tempos; de que a caipora e o pai-da-mata ainda estão por ali.

De resto, andar pelos antigos caminhos que nos levaram ao “Pinga” foi como mergulhássemos dentro de nós mesmos. Um grande retorno ao passado. Deixarmos invadir por uma sensação de paz interior nunca dantes experimentada em nossas vidas sertanejas. Algo que, sobretudo nas grandes cidades, diria que não tem preço.
Todavia naquele rincão missãovelhense, a natureza como se percebe, está fazendo sua parte. De sorte que, depois desta prosaica incursão ecológica e memorialista peço aos meus conterrâneos em particular e, ao povo do Cariri em geral, que não se permitam a mais este crime. Não deixemos o “Pinga” morrer. Tampouco o Salgado se envenenar. Do contrário, o futuro certamente não nos absolverá...
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Prof. José Cícero
Secretário de Cultura, Turismo e Esporte
Aurora - CE.
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Fotos: Kledson, JC, Marx e Wesley.