Obras: Alfabeto das Musas, Natureza Ritmada, Versos Bucólicos, Reflexões de um Rebelado, Cronologia de Homens Ilustres e trabalhos inéditos.
Nem estrela que ciúme não sentisse.
Digno de que com ela eu comparasse.
Cheia de graça e angélica de Alice.
em isse, esse, asse (ace) e osse (oce). Rimas heterofônicas
homográficas. É um exemplo de prosopopéia.
Assim, não sei. E, ao mesmo tempo, julgo
Queira, em tudo, ficar fora do vulgo.
Diz-me ela ao lhe indagar. E a crer me leva
E alguma cousa jônica me enleva.
Com a castidade das donzelas sírias...
Antiga Deusa ou uma das Valquírias.
Que não deseje, então, para exaltá-la.
Novo Petrarca, enfim, para cantá-la.
Movendo um claro céu a cada passo.
(Nota:- Alusão ao amor de Petrarca.
figura de repetição.)
* * * * *
MARGARIDAO nome da margarida figura nos dicionários com várias
significações poéticas:
a) nome próprio de mulher;
b) no reino vegetal - nome de uma flor;
c) no reino animal - nome que dão à pérola extraída da
concha marinha;
d) no reino mineral - nome de uma pedra preciosa.
Entre Rosa, Violeta e Margarida,
Ninguém soube, jamais, dizer qual era
Das três, a flor que mais enfeita a vida
Cada qual, no seu gênero, a exagera.
Creio, porém que, sobre as mais, impera
A última, quer no lar, quer na avenida,
Nos campos, nos jardins. Se alguém duvida,
Bem pode se informar da Primavera.
Ela, enfim, representa a Natureza
Em seus três reinos dividida . Em fina
Pérola, no animal se representa.
Prende-se à flor e à gema que se ostenta
No mineral. E em tudo, assim, domina:
No perfume, no brilho e na beleza.
(Nota:- A nota inicial do Poeta se desenvolve
como num epânodo (figura de repetição), com
fina ironia no 4° verso do 2° quarteto).
* * * * *
NAÍDENão sei bem se Naíde se chamava
Ou Náiade, porém, com perfeição
Me lembro que o seu nome principiava
Com a mesma letra com que escreves - Não!
Sei que aos seus pés o mundo se prostrava,
Como a implorar promessas ou perdão
E após a Natureza me contava
O segredo da própria confissão.
Era todo o Universo apaixonado
De Náiade ou Naíde aos pés prostrado.
Com quem chora aos pés de um confessor.
E embevecido em sua formosura
O mundo todo em luz se transfigura
Numa perfeita confissão de amor.
* * * * *
OLGAOlga!... Aos ditosos ares onde assume
Tua figura angélica e dourada.
Pensa-se ver um cisne de Prudhomme,
Quando, num lago azul, cantando, nada,
Deus fez o céu de forma arredondada
Como a indicar a letra do teu nome
E a todo sol na esfera constelada,
Manda, também, que a mesma forma tome!
Prevendo o teu encanto, a Natureza
Traçou elipses ou circunferências
Em tudo quanto fez grande no mundo.
E para harmonizar com tal beleza
Com a mesma letra Deus faz reticências
De luz e de astros pelo azul profundo.
(Nota:- Prudhomme, poeta parnasiano francês)
* * * * *
PALMIRANo manancial que diariamente espera
A uma hora certa o banho de Palmira,
Ouve-se o sol dizer: _Ah! Quem me dera
Ser essa fonte! E a fonte então suspira.
-"Antes quisera ser o sol que gira
Na altura, a vê-la em tudo da alta esfera!"
(Pois que Palmira uma hora só a inspira
Durante vinte e quatro que a lacera!)
Diz a floresta: -"Quero ser a aurora"!
A aurora diz: -"Quisera ser a escura
Alcova, que com sua luz se aclara!"
Murmura a luz: -"Que querem mais agora?"
Aurora, sol, floresta e fonte pura,
Como se fartarão com luz tão rara?!
(Nota:- Rimas em era, ira, ara, ura e ora)
* * * * *
QUITÉRIAPor que o teu nome é feio, não se deve,
Todavia esquecer tua beleza
Pois que, com esta letra, não se escreve
Um nome belo em língua portuguesa.
Basta ser bela, para o nome, em breve
Transformar-se em brasão de alta nobreza.
Pelo que, não existe, com certeza,
Um nome de mulher que não se eleve.
Como a noite que horror nos anuncia
Mas o clarão do luar e das estrelas
A faz cheia de encanto e de poesia,
O teu nome, Quitéria, teve a sorte
Daquelas noites que se tornam belas
Com as auroras boreais no Polo Norte.
(Nota:- Quitéria começa com a letra "Q",
permitindo ao Poeta glosar o "que" de
diversas maneiras: no 1° verso - por que;
3° verso - pois que; 7° verso - pelo que;
8° verso - que não se eleve; 9° verso
- que horror nos anuncia; 13° verso
- que se tornam belas).
* * * * *
ROSACom as rosas da saúde que florescem
Nas pequeninas mãos, na face pura
E outras que em seus cabelos de ouro tecem
Uma auréola de rosas que fulgura
Na fronte, um véu de transparente alvura;
Vai para a igreja. É noiva. Os anjos descem
E, com as capelas de ouro, lhe oferecem
Todas as rosas dos jardins da Altura.
Mas ninguém me pergunte quem seria
Esse noivo feliz, porque, tal dote,
Só mesmo um Ser Divino o merecia!
Pois que todos a viram, ajoelhada,
Recebê-lo das mãos de um sacerdote
No ministério da Hostia Consagrada.
* * * * *
SARANa noite em que a exalcei, aos céus erguia
A vista, e via em festa o firmamento
Do assento de uma estrela para o assento*
De outra estrela que além folgava e ria.
Um milhão de girândolas subia,
Soava na altura mágico instrumento
E buscando eu saber por que seria
Tanto alvoroço, pela voz do vento
As estrelas, com frases comovidas
Nun claro gesto de alegria pura
Me dizem sumamente agradecidas.
_ "Em louvor do teu verso que compara
Nossa apagada e mísera leitura
Com a imagem bela e cândida de Sara".
(Nota:- Mesoteleuto de assento e mesodiplose
de estrela nos versos 3° e 4° (fuguras de
repetição).
* * * * *
TEREZAEsta, por quem se esmera a Natureza
Em conserva-lhe um duplo encantamento,
Ergue à feição humana, um monumento
Moral em toda a sua singeleza.
A luz da graça e do aperfeiçoamento,
_Tesouro de virtude e de beleza
_Mostra também, os dotes do talento
Como assim se ilustrou santa Tereza.
Tal como Júlio César se decide
A imitar Alexandre em sua glória
E que mais tarde o fez assim, progride
Tereza tendo sempre de memória
A Santa de seu nome que preside
Seus atos, quer na vida, quer na História.
* * * * *
URÂNIAUm dia Urânia veio à terra e após,
Apolo fala e ordena à maior parte
Dos grandes deuses que de toda parte
Acordem, todos, à apolínea voz:
_"Que ordena o meu senhor?" _"Vá um de vós
Atrás de Urânia que fugiu!" Desfarte,
O mais violento que é o guerreiro Marte,
Resolve, então se aproximar de nós.
Mas Netuno, Saturno, Urano, Vênus,
Mercúrio, Jove, grandes e pequenos
Deuses fazem a Apolo objeções:
Que, como Cristo viera noutra idade,
Ela viera ensinar à humanidade
A estrada de ouro das constelações.
(Nota:- Soneto mitológico.
Urânia é a Deusa da Astronomia.)
* * * * *
VIOLETAA um enxame de abelhas e falenas
Com que o aladomSísifo no ar se cruza,
A Primavera reúne as filhas, plenas
De orvalho, _o vinho que entre as flores se usa.
_"É o natalício de uma que se acusa:
E és tu, Violeta, que entre nós ordenas
E que sucesso tal se reproduza
Sempre, por Flora!" _dizem as verbenas.
Como uma deusa entre as irmãs formosas
Recebe abraços, parabéns e beijos
De açucenas, de lírios e de rosas...
E Violeta, apesar de ser humana
Para acender das outras aos desejos,
Ficou sendo das flores soberana
* * * * *
WALDANasceu talvez num dia em que no Reno
Lançasse o sol o disco avermelhado;
Pois que mostra com algo de encantado
Visor de fada no seu porte ameno
Seus olhos têm a cor do céu sereno
O seu cabelo é um nimbo de ouro ondeado
E o próprio chão se orgulha em ser pisado
Pela alva planta do seu pé pequeno.
Da sua voz o timbre lembra o coro
De Eurídice, ao compasso de uma orquestra*
Por ágeis mãos tangida em liras de ouro
Mas o que mais me atrai na doce Wanda
É o nobre aspecto de guerreira destra
Que abate os leões nos reinos de esmeralda
(Nota:- *Mitologia. Eurídice, mulher de Orfeu.)
* * * * *
XIMENAÀ Grécia, outrora a combater os males,
Vieram Pítacus, Bias e enfim os sete*
Filósofos que a História aínda repete
_Sólon; Mison, Quilon; Periandro, Tales.
Com a mesma origem veio aos nossos vales
Ximena, tendo em cruz, um ramalhete
De flores, que lhe ofertam, num banquete
Todo o essencial licor que tem no cálix
Quando ela surge, animam-se os verdores
Em seu louvor, na música do ninho
Voam cantando, alados trovadores
Em cada ramo canta um passarinho
E o vento a segue sacudindo flores
Pelas areias brancas do caminho.
(Nota:- O Poeta relaciona os 7 sábios
da Grécia Antiga.)
* * * * *
YÊDAÉ uma incógnita algébrica a figura
Dessa deusa oriental de estranho porte
Como o Japão, de exótica postura
De água e vulcões é um lírico recorte
Mais que as outras se mostra altiva e forte
Na arte das construções e arquitetura
Que à guisa de pilar ou de suporte
Sustem os vigamentos da estrutura
Tem a forma da lira e os esplendores
Dol sol, na voz a célica harmonia
Como que a musicar as sete cores
Do arco-íris que a seus pés mostra a leveza
De um sonho a parecer que se extasia
Em ascensão a própria Natureza.
* * * * *
ZAÍRANão, Não* seja eu com minha musa calma
Quem cante os dons de tão divino ser,
Que o poeta, enfim, que há de levar a palma
Porque os cante, está aínda por nascer!
Tenho apenas a idéia que me encalma,
Quanto à expressão ou modo de dizer,
São os versos que ficam dentro dalma
E não poderei nunca os escrever!
Nem mesmo o esboço posso dar do sumo
Encanto de Zaíra que é o resumo
Dos céus nos seus eternos apogeus!...
Entidade divina e soberana
Que não é feita da matéria humana,
Mas do Éter e da Luz, por mão de um Deus.
(Nota:- Repetição enfática do não, epímone).
* * * * *
À CARMINHAPenélope, rainha da Ítaca e mulher
de Ulisses, a fim de se ver livre de seus
Inúmeros requestadores tecia de noite e
desmanchava de dia o trabalho, com que
havia de presentear o sogro, para, conforme
o costume antigo, obter a licença de contrair
núpcias como viúva, que se supunha, na
longa ausência de seu esposo.
(Da Ilíada)
Penélope moderna, meiga e pura,
Tipo modelo, quando aínda é comum
O delito social que aínda tortura
Os Ulisses do século vinte e um!
Na ausência do homem que a ama, homem algum
Jamais vê com maldade, que a ternura
De seus afetos, se concentra num
Culto de amor que só no lar se apura.
Sem estar sempre e urdir e a desmanchar
A inacabável teia que arma e incita
Falsos amores contra o amor do lar
Cerra-se na virtude, como flor
Que se não mostra ao mundo, mas imita
O amor perfeito, no perfeito amor.*
(Nota:- Epanástrofe: o amor perfeito,
no perfeito maor (figura de repetição -
repete o mesmo final no sentido inverso.)
* * * * *
O QUE REPRESENTAM AS MUSASALICE - A beleza inatingível.
BEATRIZ - A beleza perfeita.
CARMEM - A luz matutina.
DOLORES - A luz crepuscular.
ELOÁ - A beleza mística.
FLORÍPES - A beleza legendária.
GUIOMAR - O luar na praia, a lua.
HELENA - A beleza heráldica.
IDILVA - Os raios do sol sobre a montanha.
JULIETA - O conjunto das belezas naturais.
KORA - A beleza excêntrica.
LAURA - A beleza das águas correntes e límpidas, refletindo o céu.
MARGARIDA - A beleza nos três reinos da natureza percebida.
pelo perfume da flor e pelo brilho da rérola e da gema.
NAIDE - O nascer do dia, a alvorada.
OLGA - A beleza das noites estreladas, dos astros.
PALMIRA - A beleza fugitiva e alternante das cousas, em face da luz.
QUITÉRIA - Auroras boreais aformoseando as feias solidões polares.
ROSA - A inocência e a candura.
SARA - Os meteoros, a luz e os sons em espirais.
TEREZA - A moral (personificação).
URÂNIA - Como sempre, a astronomia. É a musa que fugiu do
gêmio das Apolo para o das do "Alfabeto".
VIOLETA - A primavera e as flores.
WALDA - Valquíria de Vagner.
XIMENA - Os perfumes, os gorgeios e as carícias suaves do vento.
YEDA - A arquitetura, a música e as cores.
ZAÍRA - Entidade cósmica. o éter. Força cósmica ou divindade
dirigente das forças da natureza.
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(Obs.: As notas são de Henriques do Cerro Azul, filho do autor).
Fonte - Blog: de Valéria Serra Azul in http://valeriaserraazulalbuquerque.blogspot.com.br/--------------------------------
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