sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um Toque a mais de Poesia... *

Como de resto, eu vivo...

Trago em minhas mãos dolentes.
Milhões de calos antigos.
Árduas cicatrizes
das lidas em que me entreguei
de corpo e alma,
como um antigo escravo dos deuses resignados.
Sofrimentos que a duras penas suportei
em meio a um turbilhão de sacrifícios
em que todo dia morro
e logo na manhã seguinte, ressuscito.
Trago nos meus olhos vermelhos
eternas lágrimas dos amores que perdi
ao longo dos caminhos
que perigrinei sem rumo.
Mas quase sempre
quando me perdi eu me achei
dentro de mim mesmo.
Seguindo os perfumes selvagens das paisagens
que um dia vislumbrei inebriado,
pela paixão que nunca senti
e tampouco experimentei
Ansiando poetizar com meus gestos ensandecidos
todos os amores que há no mundo.
Vivi o impossível junto ao eterno milagre de ser feliz.
Contando nos dedos os mistérios,
assim como todas as aventuras que esqueci
quando busquei a vida toda
ser o próprio artista
da arte do encontro
a que todos um dia terão consigo mesmos.
Peregrinei...
Andei sobre mim mesmo,
léguas tiranas...
Fiquei cara a cara com a sina que escolhi para mim.
Fiz as pazes com a sorte que abracei
sem temor e nenhum medo.
Deslumbrado sonhei além do necessário.
Ébrio de amor e vinho.
Sedento de tanto desejo
afogados nos beijos que dividi
com todas as mulheres que amei no mundo.
Deixei o meu Eu profundo
pelas estradas que passei.
Quem sabe, solitário
a perguntar por mim ao vento
à beira do caminho
a um passo do abismo
ou do paraíso...
E desde então, a minha vida
perdeu a graça.
E eu não estou nem aí
para o meu destino.
Tampouco, para todo o resto.
Porque tudo o que é resto
é assaz ingrato
e eu desprezo,
mas também tenho medo.


.....................................

José Cícero
Secretário de Cultuira/Aurora-CE.

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Vambora...

VAMBORA...


Vou indo... inté mais meu velho!

Recomendações a comadre e aos meninos

que estão no eito.

No baixio do açude

Na moagem do engenho

Pescando no rio

Tomando banho

No riachinho.

Vou indo... amigo!

a hora já finda.

A noite não tarda.

O tempo urge e não espera.

Conversa longa é desperdício

e pra quem tem dinheiro.

Vou me embora...

Até mais meu amigo.

Lembranças a todos.

Diga que sempre me lembro

De todo eles.

Jesus fique contigo.

Também tenho minha luta

Labuta que não para nunca

Adeus – passar bem.

Daqui já ouço os gritos da cachoeira

Batendo forte,

Nas pedras e nos lajedos

Como as lavadeiras

Lá do meu sítio.

De: José Cícero(Inédito 2011)

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Foto: Luiz Alves Jr.

domingo, 2 de outubro de 2011

Minha opinião sobre a terceira edição do CARIRI CANGAÇO. Por Archimedes Marques

Agradecendo ao comandante Manoel Severo Gurgel Barbosa por ter sido eu também um dos privilegiados a vivenciar este grandioso evento, desejo todo o sucesso possível para os próximos CARIRIS CANGAÇO que por certo ocorrerão por muitos anos.

(O autor)


Quando Manoel Severo, idealizador e curador do Cariri Cangaço me convidou para participar dessa edição do Seminário Cariri Cangaço "Da Insurreição a Sedição" de 20 a 25 de setembro/2011, até relutei de início em não aceitar o convite, primeiro porque eu não me achava preparado por não ser um estudioso do tema, como de fato ainda não sou, apesar de já ter lido mais de três dezenas de livros e ter realizado muitas pesquisas, além de ter publicado centenas de artigos de autores diversos no CANGAÇO EM FOCO, site que tanto me dá prazer e alegria, segundo porque me considero apenas um mero estudante desse tema que tanto me empolga quanto me intriga devido a sua diversidade, misteriosidade e controvérsias, principalmente entre as opiniões de alguns escritores, terceiro porque eu sabia perfeitamente que nesse evento eu encontraria o sumo, a nata, o néctar dos estudiosos, pesquisadores, escritores, historiadores, colecionadores. Assim, apesar de ser um estudante, um curioso e de certa forma um amante inicial do tema cangaço, vez que desde criança, quando ouvia as histórias pertinentes, em especial as histórias de Lampião, de tudo me empolgava e, quando da minha vida adulta, da minha vida profissional, da minha vida policial, da minha vida de delegado de polícia há mais de 25 anos de atuação no Estado de Sergipe, não me deixaram melhor me aprofundar no assunto, o que vem acontecendo agora, gradativamente, por conta principalmente do intercambio ocorrido por conta do meu blog e pelo fato de eu já estar próximo da minha aposentadoria e com mais tempo.

Na minha infância fui ouvinte assíduo e atento das tantas histórias lampiônicas, principalmente as contadas pelo meu querido amigo piranhense


Inácio de Loiola Damasceno Freitas, que desde aquele tempo já demonstrava ser um excelente orador e contador de casos e "causos", apesar dos seus 13 ou 14 anos de idade. Inácio e Washington foram e continuam sendo os meus amigos de fé, meus irmãos camaradas. Nas décadas 70 e 80, aqui em Aracaju, praticamos muitas estripulias juntos, fruto de um tempo que não volta jamais e próprias da juventude avançada para a época, uma época que só deixa saudades.

De volta ao Cariri Cangaço, mais de perto ao convite de Severo, ponderei e terminei por aceitar. Depois de romper quase 700 Km, cheguei ao Crato junto com a minha adorável e amada esposa Elane Marques e do amigo


Alcino Alves da Costa, o decano caipira de Poço Redondo, entretanto, o que vi daí para frente superou todas as minhas expectativas. Esperava eu por um evento de grandeza, mas não com tanta magnitude, com raras ressalvas. Desde o dia da abertura até o dia do encerramento as várias cidades do Cariri cearense que se somaram a ideia de Severo, mostraram grande eficiência e de certo modo até disputaram por melhores receptividades à grande família do Cariri Cangaço, provando assim a alegria e bondade do povo do Ceará para com os seus visitantes. Dias inesquecíveis foram esses que por certo ficarão para sempre na minha memória. Foram palestras e debates de grandeza, partindo de pessoas realmente entendidas no assunto cangaço e adjacências que me deixaram mais enriquecido nesse tema que a cada dia mais me apaixona. De tudo aprendi um pouco com cada um dos participantes, pois a vida é um eterno aprendizado e nada melhor do que aprender com bons professores.

Contudo, notei que no âmago das discussões há uma certa rivalidade, uma certa competição entre alguns membros, no meu ver desnecessária e descabida, vez que ninguém é o dono da verdade no assunto cangaço, o cangaço não é e jamais será uma "ciência" exata, ainda mais quando de tudo se mostram que a cada livro, a cada texto, a cada opinião, de uma maneira ou de outra, existem certas verdades ou pelo menos fatos descritos que se aproximam delas que se contradizem com outras do mesmo gênero, ademais, a história oral, os testemunhos pessoais são passíveis de erros, de exageros, de enaltecimentos próprios ou interesses diversos.

No âmbito judicial alguns juristas até consideram as provas testemunhais como sendo as "prostitutas das provas" devido a fatores diversos que distorcem as verdades. Com saber se os depoimentos prestados pelos sobreviventes da época do cangaço são depoimentos reais daquilo que realmente ocorreu?... As declarações prestadas por determinados cangaceiros, coiteiros, volantes e demais pessoas que vivenciaram o cangaço a certos escritores são mais importantes e verdadeiras do que as outras prestadas a outros escritores e historiadores?... Quem vive no mundo das investigações e em busca de auxiliar a Justiça, como é o meu caso é quem mais sabe que um cidadão hoje dá uma versão para determinado crime, sobre determinado fato e amanhã da outra narrativa, outra história é contada e quando o Inquérito policial chega à Justiça ele até muda o seu depoimento, por vezes dois ou três depoimentos diferentes.

Como saber qual o verdadeiro depoimento?... Como saber quais as declarações prestadas aos escritores e historiadores do cangaço são as verdadeiras?... É evidente que todas essas indagações podem ser buscadas e melhor pesquisadas pelos estudiosos do assunto, mas nunca sob a alegação de determinado escritor em querer a tudo sobrepor para ser o dono da verdade em detrimento da verdade do outro que então passa a ser uma verdade duvidosa, mascarada e até mesmo uma "verdade-mentirosa". É evidente que as aberrações e invencionices descabidas de certos autores que só visam o comercio devem ser veementemente combatidas para o próprio bem da história do cangaço, mas não discussões que a nada levam.

Quanto a questão da verdadeira "maratona" para os participantes existente na programação do Cariri Cangaço, fruto da minha única reclamação com o comandante Severo, tenho certeza que a partir do próximo evento, principalmente agora que foi criado o Conselho e todos os conselheiros já tomaram posse, assim espero que será revista para melhor. Tenho plena certeza que os nobres conselheiros em comum acordo com o curador Severo hão de encontrar um meio termo para tornar o evento menos cansativo, mais proveitoso e de todo elogiado como seminário de primeira grandeza, ultrapassando a magnitude que de fato foi o Cariri Cangaço 2011.

Entrando na seara das palestras e das falas dos membros, sem desmerecer os demais participantes que tiveram todos as suas reais importâncias no contexto geral do seminário, quero destacar as palavras técnicas do


Ivanildo Silveira na sua conferência O CANGAÇO EM IMAGENS, as excelentes e irreverentes interferências do

Paulo Gastão


e Antonio Villela, as serenidades de Alcino Alves da Costa


e João de Sousa Lima,


as boas explicações de Jose Cícero e Bosco André na conferência AURORA "A TRAMA DE IPUEIRAS E A INVASÃO DE MOSSORÓ, ao trabalho efetuado

Ângelo Osmiro e Luiz de Cazuza

por Ângelo Osmiro com o tema A LITERATURA NA ÉPOCA DO CANGAÇO, a conferência em palavras fáceis de Inácio de Loyola e em especial o trabalho cinematográfico ainda em construção, mas apresentado o seu primeiro capítulo da minisérie SEDIÇÃO DE JUAZEIRO,

Aderbal Nogueira e Jonas Luiz

de Jonasluis de Icapuí.

Agradecendo ao comandante Manoel Severo Gurgel Barbosa por ter sido eu também um dos privilegiados a vivenciar este grandioso evento, desejo todo o sucesso possível para os próximos CARIRIS CANGAÇO que por certo ocorrerão por muitos anos.

Aracaju, 26 de setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Velho Circo - Por José Cícero*

Circo Kelvin recentemente instalado no entorno da antiga estação de Aurora
Olho este velho circo.
Como um monumento esquecido e abandonado
sobre a memórias afetiva dos meus antigos anos.
Circo da minha meninice e dos meus sonhos adolescentes.
Fantasias e aventuras despedaçadas
sobre as tábuas dos seus picadeiros e poleiros antigos.
Utopias que deixei guardadas
sob a sua empanada cheia de rasgos e de tantos buracos.
Eterno retorno de um passado que nunca passa.
Desafio proclítico da memória
contra todos os fantasmas do esquecimento.
Grita de velhos palhaços perna-de-pau...
andando pelas ruas puxando a meninada.
História do abandono...
Circo - repositório de reminiscências e de saudades.
Tempos idos e românticos aqueles....
Circo que nos põe a vida toda no pretérito.
Anos que amei e fui amado.
Momentos inesquecíveis de eternidade.
Gratas recordações
que carrego comigo para sempre
como em flash back.
Eu, assim como ele, envelheci.
Contemplo-o todavia,
com meus olhos rasos de lágrimas
postos no passado.
Este circo agora é um grande biombo
de pano carcomido e flandres enferrujados
colocado como de propósito,
entre o meu presente e o meu futuro.
Olhando este circo
mergulho fundo no passado.
Vejo-me por dentro
assistindo pela milionésima vez
a desbotada quimera do seu repetitivo espetáculo.
Morrendo de lembranças e de saudades
dos anos em que fui feliz na vida
delirando ante seu teatro.
Hoje, no entanto,
prenhe de tristeza contemplo-o calado
em meu silêncio
como quem grita alto
– antigo palhaço!
Querendo a todo custo,
encontrar sorriso na face
dos que são tristes e sofrem.
O circo ainda agora embala a minha alma
com suas relembranças.
O circo é o fio condutor
que me mantêm ligado
tanto à vida quanto ao passado.
Ainda que eu me sinta assaz desiludido
e morto de saudade...
Eu amo este velho circo
de modo desmedido e demasiado.

.............................................
(*) José Cícero
Sec. de Cultura
Aurora-CE.
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Foto ilustrativa:
Circo Kelvin em passagem recente pela cidade de Aurora, montado ao lado da antiga estação ferroviária.

domingo, 18 de setembro de 2011

UM POEMA PRA ENCHER OS OLHOS




DESPINDO A MÁGOA

Só as tuas mãos trazem os frutos.
Só elas despem a mágoa
destes olhos, choupos meus,
carregados de sombra e rasos de água.

Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
- Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos...
( Eugênio de Andrade)
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Foto: Natália Vodianova

Fonte:http://www.josevaldir.com
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SERTÃO DE ABELHAS - Por José Cícero



ABELHAS SERTANEJAS E OUTRAS SAUDADES...

Lá na beira do riacho do meio
bem na grota que descamba pro poço fundo
uma grande catingueira velha
carcomida e furada bem no tronco
onde mora uma antiga Mandasaia.
Cheia de mel doce com cheiro de imburana
abelha mansa e outra italiana enfezada.
naquela mata existe ainda Uruçu,
numa enorme braúna alta e ocada
repleta de mel de Manduri e Jandaíra.
E na sombra fresca da nossa casa
também abelha de Canudo mansa
e um enxame de Jati sob a latada.
E Lá na roça do velho Jiqui há um Inchu
arranchado nas galhas do pé de oiti
abelha Mosquito, Moça Branca, Arapuá
Jandaíra, Sanharol e Inchuí.
existe ainda uma africana braba
morando num tronco de um gameleira velha.
e num oco fundo do Inharé
uma verdadeira fábrica de cera:
Sanharol trabalhando a vida inteira
a fabricar a cola natural dessa ribeira.
E bem na copa do frondoso pé de juá
se ver a morada de uma cupira.
Subindo mais pra riba da fazenda
Há uma Ingazeira,
logo depois das ribanceiras
na cabeça do morão servindo de estaca
Um grande cupinzeiro,
onde há anos habita uma Cupira braba.
Formigas de roça, besouros mangangá e abelhas
Casa de taipa por trás das oiticicas
Marimbondo, cavalo do cão, mutuca da mata,
Tudo o mais é pura saudade
que tenho da natureza do sertão
que ora relembro e penso com emoção
sentado sob as moitas de jurema, unha de gato, avelós
ou na sombra aprazível e fresca
do Joazeiro e da Aroeira
que ainda agora adornam a beira da antiga estrada.
.....................................
José Cícero
Secretário de Cultura
Prof. de Biologia
Pesquisador do Cangaço
Aurora-CE.

Fotos: http://urucueabelhasnativas.blogspot.com

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