quinta-feira, 18 de setembro de 2014

AURORA EM MEMÓRIA: Cel. Francisco Xavier de Sousa 167 anos de morte, 217 de nascimento

Por José Cícero
Nascido na vila de Santa Cruz em Aracati-CE no ano da graça de 1797. Filho do português  Manoel Vieira de Melo e  Maria Ignácia Bezerra. Segundo alguns poucos relatos históricos  foi abandonado pelo pai, que resolveu ir morar em Campos dos Goitacases no Estado da Guanabara-RJ.
Ainda  em Aracati casou-se pela primeira vez(alguns historiadores afirmavam que era apenas amasiado) com  Maria Joaquina Xavier de Sousa(da Silva), com a qual tivera quatro filhos.
Muito pouco se sabe como ficaram os seus rebentos no Aracati: (Agostinho, Alexandre, Elena e Maria Xavier Bezerra).
Rumores davam conta, inclusive de que a tal ‘esposa’ amásia era uma mulher de muitas posses.
Uma vez viúvo resolveu tentar a sorte pelas bandas do Cariri cearense. Mas sem antes ter que empreender viagem ao Rio de Janeiro onde conseguiu ludibriar a então madrasta ficando assim, com a fortuna do pai,  bem como o fizera com a da sua suposta esposa no Aracati.
Uns dizem que ficou viúvo. Outros, entretanto, afirmaram que, motivado por outros interesses  resolveu  pôr  fim ao relacionamento, rumando em seguida para o interior cearense.
Mas o certo é que, de fato, como fez o pai, abandonara igualmente  o Aracati  em favor da Venda d’Aurora possivelmente entre os anos de 1828 a 1831 conforme raros escritos.
O grande fluxo de produtos e  mercadorias caririenses que chegavam ao porto do Aracati fê-lo decidir por tentar a sorte por estas bandas em busca de obter fortuna, inicialmente como comerciante.
A aventura, portanto,  estava apenas começando.
A viagem para o Cariri
Aurora antiga - pintura de Arnaldo das Ingazeiras (acervo JC)
Enfim partira. Primeiro visitou a cidade do Icó na época importante entreposto comercial que interligava o sertão e o litoral. Era por assim dizer, já naquele tempo, uma vila das mais promissoras em se tratando da economia promissora do Ceará. De vez a  mais rica e próspera de toda a região.  
Em 1838, o Crato,  por exemplo, segundo assinalou Gardner, botânico escocês que por aqui passara, possuía apenas um terço do tamanho total da vila do Icó.
Não gostara do lugar. Suas ambições eram bem  maiores do que o rebuliço dos tropeiros e a efervescência comercial daquela vila lamacenta naqueles dias de invernos, além de quente e poeirenta durante as estiagens.
Porém, pelas informações que obteve, o Cariri era um sinal de bonança e de fartura. Ele resolveu vir conhecer de perto. E as fartas águas do Salgado que  ele observava  pelo caminho durante a  viagem, após o riacho do sangue  animavam ainda mais o seu desiderato. Logo chegaria ao seu destino, onde  ansiava construir com unhas e dentes   o  seu “eldorado” interiorano. Coisas que ele não mais esperava do seu Aracati.
E não se arrependeu do que viu, experimentou e viveu... Além de ousado, ambicioso e inteligente, foi também um cidadão de muita posse e  sorte.
E foi justamente isso que   perseguiu por toda a sua vida. Estava determinado a realizar seu grande sonho. Foi  ao encontro da sua utopia.  Seguiu o riscado geográfico do rio caririense, como fizeram os primeiro colonizadores do grande vale. O mesmo rio que, diga-se de passagem, naqueles tempos ainda era perene, correndo o ano inteiro na direção do grande Jaguaribe. Que assim como o audacioso Xavier, também queria ser grande, imenso, ganhar o mundo, virar mar...
Ainda que preciso fosse recomeçar do zero.  Era, como se nota, um homem capcioso e determinado naquilo que realmente acreditava...  
Foi em frente, interior à dentro seguindo as veredas das matas  na direção do Cariri.
Em boa parte logo após o Jaguaribe, margeou o Salgado em seu caminho natural como  faziam por todo o ano os almocreves e viajantes. Avistou coisas novas trocou idéias e dinheiro com os transeuntes que transportavam as riquezas econômicas da  região para o litoral.
Entusiasmado, chegou por fim  na Venda – antigo topônimo da então vila de Aurora. 
Gostou do que viu. Solo bom, água farta. Poucas almas e um mundão de terras propícias para o criatório e lavoura(principalmente cana de açúcar e algodão). Quis saber se ali ainda havia terras devolutas como ouvira falar.
Clima ameno, com ventos aprazíveis vindos do Araripe refrigerados pela Araripe. Matas virgens, calmaria  e águas. Muitas águas... Um claro sinal de fartura como indicativo para uma prosperidade tida como certa. Quase um presente bem ao alcance das mãos. Um verdadeiro oásis quase sem ninguém para tomar conta e fazê-lo produzir a contento pela força do trabalho. 
Eis a fazenda logradouro da Venda d'Aurora.
Um lugarejo já meio famoso, em virtude da conhecida  taberna de comida, de descanso e beberagem da famosa D. Aurora sempre utilizada por  mascates e almocreves.
Pelo jeito, se agradara de chofre, da antiga Venda da fazenda Logradouro.  Parada quase obrigatória para todos os que iam e vinham todos os dias do Crato-Icó-Fortaleza(Aracati). Além de ligação permanente entre os viajantes do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e, até mesmo do Piauí e Pernambuco.
Um bom lugar que ele avaliou como altamente promissor.  Estava por fim decidido. O Cariri agora é uma realidade diante dos olhos e das mãos.
Seu destino estava selado. Uma nova história de vida estava prestes a começar ali. Estava entusiasmado, além de embevecido pelas novas descobertas que o fascinavam a cada dia mais e mais.
Venda d'Aurora: Aquarela de José dos Reis Carvalho(1859)
Assim como os tropeiros reabasteciam suas tropas, o então alferes Francisco Xavier  reabasteceu seus ânimos,  além do seu  sonho de fazer fortuna e se tornar grande entre os poucos da região. Talvez ali mesmo, na Venda que beirava o Salgado  tenha alimentado sua maior utopia. Quer seja a  de iniciar uma vila, uma cidade, bem aos moldes do Icó ou mesmo da sua Aracati que ficaram para trás.
Seu coração se encheu ainda mais de confiança quando conheceu o lugarejo da Venda pela primeira vez sob os auspícios do alferes João Luís Tavares, irmão do seu futuro sogro.
Foi neste momento que provavelmente, conhecera a lendária Aurora – a suposta proprietária da taberna. Dizem que foi a partir daquele instante histórico que se afeiçoou da lendária e controversa mulher. Muito bonita por sinal. Ao certo nada se sabe, além das ilações historiográficas de uns e da discordância de outros.
Neste particular, diria que, tanto a lenda quanto o folclore andam muito próximas do que poderíamos descobrir como verdade a alimentar a imaginação dos homens  em geral  e da histórica em particular. O nascimento do mito dava ali os seus primeiros sinais.
Uma vez no lugar, quis saber quem seriam os donos daquelas terras. Fora informado que as mesmas pertenciam  a um certo padre - Antonio Leite de Oliveira. Um religioso extremamente zeloso com as coisas de Deus e, sobretudo com as suas.
Um sacerdote que pelo jeito não suportava sozinho a solidão daqueles grotões  quase esquecidos de tudo e de todos,  naquele  oco do mundo.  Alguém  que amou, além da conta a humana raça.  Ao ponto  de, na mais  lídima expressão do termo, ter cumprido fielmente a assertiva bíblica que diz: “Crescei e multiplicai”.  Quebrando assim o medievo dogma do celibato.
De modo que, além dos quatro filhos que tivera com a amásia Josefa Leonor da Encarnação para as bandas do Crato, tivera mais outros dois  na rica ribeira da Venda. Quer sejam: o alferes João Luís Tavares e Davi Cardoso dos Santos. 
O Padre Antonio Leite de Oliveira - O Pioneiro:
Antonio Leite de Oliveira era seu nome. Filho de um outro padre, o jesuíta português – Alexandre Leite de Oliveira. Dono de muitas terras nas redondezas da Venda, além dos engenhos de aguardente e rapaduras: Rosário e Canabreiro para as bandas do Crato bem ao sopé das grande serra.
Era por sinal, avô do não menos polêmico e famoso, o padre José J. Teles Marrocos. Foi inclusive, o padre  Antonio Leite de Oliveira  o 12º vigário da paróquia de Missão Velha até o ano de 1805. Além de ter ajudado igualmente  nos trabalhos religiosos da própria Venda, onde  erigiu  na sua fazenda Logradouro um pequeno oratório no qual realizava ofícios,  batizados e casamentos com registros datados já nos primórdios de 1818.
O alferes Francisco Xavier de Sousa  segue sua viagem na direção do Crato:
Faz parada em Missão Velha também observando suas potencialidades e em conversações com os proprietários das terras do lugar. Enfim chegou à vila do Crato. Ficara impressionado com a natureza e as riquezas do lugar, assim como de toda a região por onde passara. Tudo o que viu o impressionou.
No Crato conhecera o tio da sua  futura esposa  o igualmente alferes João Luiz Tavares irmão de Davi Cardoso – filhos do padre, herdeiros do sítio logradouro.
Na pauta, uma suposta  ajuda à Pinto Madeira para a articulação da chamada  ‘guerras dos Pintos’ de 1832.  Em 1831 a convite do padre Antonio Manoel de Sousa, 1º vigário de Jardim se encontra  com Joaquim Pinto Madeira, ocasião em que  discute os preparativos com vistas à  revolução do ano seguinte (1932).  
No mesmo ano em que cegara em Aurora  conhece a filha de Davi Cardoso – Maria dos Santos Cardoso(depois Xavier de Sousa) e logo em seguida a pede em casamento. O que é aceito. Contraem matrimônio.
Rapidamente se fez um  importante  homem de negócios, notadamente como criador de gado, dono de engenho e produtor rural. Além de privar da amizade pessoas importantes da política  e do poder do Cariri à capital.
Queria, além de fazer fortuna, fundar um grande povoado. O que segundo, João Brígido, um dia terminou confidenciando  para um amigo que não seria difícil. Faria uso de uma capela com  missas aos domingos, um comércio de bebidas  e muitas mulheres da vida. Há quem diga que foi exatamente assim que procedeu em seu coluio com a tal D. Aurora.
Polêmicas à parte, o certo é que a antiga Venda floresceu!
Antigo casarão construido em 1831 pelo Cel. Xavier
Do seu 2º casamento com D. Maria dos Santos Xavier – tivera mais quatro filhos. A saber: Aristides Xavier de Sousa( com 15 anos em 1854)  – que após deixar Aurora se tronou o grande patriarca da estirpe Xavier a partir do núcleo genealógico da Ipueiras, distrito de Serrita  no estado do  Pernambuco.
Em seguida,  Antonio Xavier de Sousa 11 anos em 1854, Carminda Xavier de Sousa.
Provavelmente falecida de cólera ainda em tenra idade foi sepultada  em plena caatinga distante do núcleo urbano, cuja catacumba ainda existe até hoje no sítio Tunga a cerca de 6 km da sede.
É provável que a jovem Carminda tenha sido apenas uma das tantas vítimas  da terrível  epidemia de cólera que 1864 se abateu sobre boa parte da região do Cariri(incluindo Milagres, Aurora e lavras).
Catacumba da filha do Cel. Xavier no sítio Tunga de Aurora
O último filho foi  Francisca Xavier de Sousa com 7 anos em 1854. (Mª do Socorro C. Xavier – A saga de um clã Xavier). (Oral: Sr. Vila Gonçalves).
Próximo de 1836 tentou  mudar o nome da então vila de Venda pelo de Xavielina(ou Xavielinda),  mas a proposta não vingou, visto que não caiu no gosto nem dos poucos moradores e, tampouco dos que passavam pelo lugar.
Visão do velho casarão e da igreja matriz de Aurora
Antecedentes Genealógicos:
Com a morte do sogro, torna-se herdeiro da fazenda Logradouro onde edifica um imponente  casarão(1831) – um dos mais importantes da região,  onde residiu até próximo do seu falecimento(1847) quando se mudara para o Crato e depois  Missão Velha onde já residia o seu  1º filho nascido em Aurora Aristides Xavier de Sousa,

então casado com  Maria do Carmo Teixeira natural do Icó.
Casarão onde o cel. Xavier morou em M. Velha antes de falecer no Crato
Na Venda bem ao lado do sobrado, também construiu um oratório fato ocorrido em 1837 em cumprimento a uma promessa feita pela esposa na intenção do Sr. Menino Deus – atual  padroeiro da cidade. 
Com o passar do tempo o  tal oratório se tornou capela e depois igreja matriz.  Que para o seu patrimônio o cel. Xavier  doara cerca de 300 braças de terra. Deste modo é que até  hoje é considerado  fundador ou co-fundador do núcleo urbano de Aurora, ao lado do padre Antonio Leite de Oliveira, por seu turno, avô da sua esposa – Maria dos Santos Xavier de Sousa. Além de Benedito José dos Santos(Preto Benedito) que, com esmolas e a ajuda do próprio Imperador Dom Pedro II,  posteriormente, construir defronte a antiga Venda de D. Aurora a capela dedicada a sua Benedito à margem do rio no lugar “Aurora Velha
Ainda com relação ao cel. Francisco Xavier de Sousa. No conturbado ano de 1841 envia cerca de 100 homens,  reforçando as tropas que combatiam os sediosos do Exu-PE.
Logo se  tornou rico e influentes nas hostes políticas da região e da capital da província. Tanto que chegou alferes, virou coronel e morreu como comandante superior da guarda nacional, cujo documento oficial de posse no cargo é datado de 1844, portanto três anos antes do seu falecimento.
Morreu  como diziam naquele tempo, ‘de passamento’,  ataque cardíaco no dia 19 de julho de 1847 aos 50 anos. O documento relativo ao seu óbito encontra-se ainda hoje nos arquivo eclesiásticos  da igreja matriz  de São José em Missão Velha-CE.  
Sua viúva, porém só veio contrair novas núpcias em 1853  na cidade do Crato com o capitão José Joaquim de Macedo.
Já o filho Aristides após a morte do pai e  depois de residir alguns anos em Missão Velha mudou-se definitivamente para o Pernambuco quando comprara  a uma herdeira de Barbalha,  sob a indicação do coronel Chico Romão(seu compadre) da Serrita as terras   onde fundara a vila de Ipueiras.  Sua primeira esposa havia falecido em 1876.
Estirpe da Família Xavier da Ipueiras  c/ Aristides Xavier ao centro
Na Ipueiras pernambucana casara pela segunda vez com Ana Benigna de Barros  natural de Serra Talhada-PE, falecida em 1893. Aristides Xavier de Sousa(aurorense de boa cepa) o patriarca da Ipueiras faleceu em 1898 na Ipueiras, atual distrito de Serrita-PE.
Foi o cel. Francisco Xavier de Sousa, a partir da antiga Venda d’Aurora, o grande patriarca genealógico dos Xavier na região meridional do Cariri cearense, seguido  na Ipueiras pernambucana pelo seu  filho,  nascido em Aurora -  Aristides Xavier de Sousa.
Descendem por exemplo do varão fundador de Aurora as ramificações familiares: Xavier Pinto, Gonçalves Pinto, Saraiva Xavier, Cardoso de Alencar, Xavier Quezado, , Grangeiro, Santana, Martins dentre outras.
Por tudo isso, há que se dizer, em última instância, que a família Xavier é de fato, uma história que nunca passa...
Nem haverá de passar nunca, posto que se mantêm eternamente viva e pulsante, tanto  na mente, quanto  no coração de todos os seus descendentes onde quer que estejam.
................................................
(*)Bibliografia:
 Aurora, História e Folclore – Amarílio Gonçalves
A Saga de um Clã Xavier - Mª do Socorro C. Xavier
Notícias Históricas de Aurora – Joaryvar Macedo
O Cariri – Irineu Pinheiro
Revista do Instituto do Ceará.
M.Velha: Nossa terra, nossa gente - Célia Magalhães
Algumas Origens do Ceará – Antonio Bezerra
Waldery Ucoa – Anuário do Ceará
Revista Aurora/07
O Araripe
Revista Itayrera
Fragmento:
Renato Braga
George Gadner
João Brígido
Antonio Martins Filho
Napoleão Tavares Neves
Ionney Sampaio
Informações orais.
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(*) Por José Cícero -
Escritor, Pesquisador e Poeta
Secretário de Cultura e Turismo
Aurora - CE.
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

ETERNA DÚVIDA...*


Ao certo, eu confesso:
Não sei mais se de fato vivo.
Nem sei mais se luto.

Decerto, se paro ou se prossigo
a travar o bom combate
pelas coisas que deveras eu acredito.
Se me entrego ou se resisto
a este tal carrasco chamado mundo,
demasiado vil, gregário 

e um tanto quanto devoluto.
Ao certo, sei apenas 

que deveras vivo
e a duras penas, 

isto me custa muito.
Como igualmente a pulso,
provo o amargor do
 conflito
de tentar ser Eu mesmo
a sangue e fogo, contrariando
os meus inimigos íntimos.
Em resumo, sei apenas,
que de fato, existo.
Perante o absurdo,

da solidão que sinto.
Assaz seguro 

da companhia que tenho 
em mim mesmo
e do meu Eu profundo.
..................

José Cícero 
Aurora - CE.
'Minhas Metáforas Prediletas" (inédito)

domingo, 7 de setembro de 2014

SENTENÇA DE GRANITO*

Paralelepípedos.
Pedras que carrego a duras penas
e não nego, em meus sentimentos.
Concreto de tudo o mais
que acaso vivo e sinto.
Sina e destino a que me entrego
por completo ao absurdo
de viver o mito de Prometeu e Sísifo
onde quer que eu ande...
onde vou  ou onde eu fico.

Paralelepípedos.
Pedras e sedimentos que tenho
e com as quais edifico.
Sonhos e pontes sobre os meus conflitos.
Sentença de fogo e de granito.
Angústias e sofrimento
e encher meu peito.
Poeira do tempo dentro dos meus olhos
como se fosse flores
nascendo e morrendo entre meus dedos.
__________
José Cícero (Inédito 2014)
Aurora – CE.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A RAIVA E O ÓDIO DOS ADEPTOS DA POLITICAGEM:


Qualquer semelhança não será mera coincidência
Que a politicagem é uma coisa ruim à sociedade moderna e democrática, isso todos nós já sabemos quase de cor e salteado. Porém, muito pior que a politicagem rasteira e barata dos mesquinhos é toda a miopia política dos que se dão por cegos, simplesmente porque não aceitam a concretude da verdade diante dos olhos.
Os que não suportam o êxito daqueles que eles odeiam e não têm coragem suficiente para dizê-los nem tampouco encará-los de frente. São os fracos de espírito que não conseguem conviver com as diferenças. A marcha-ré e o peso morto da história... Os que se alimentam cotidianamente da mentira como uma profissão de fé. Os que fingem amigos de todos, mas no fundo, não conseguem sequer ser amigos de si mesmos. Os que não sabem perder. Razão porque se transformam numa verdadeira fonte de asco e de covardia. Os que via de regra, posam de sabidos, boçalmente exibem seus diplomas, mas são absolutamente incapazes de soletrar as letras valorosas da consciência humanística, moral e política.
São por assim dizer, os maus sociopatas da fauna humana; doentes sociais que se utilizam da mentira e do embuste como alimentos de prazer. Os que de tanto faltarem com a verdade; como um castigo, terminam fatalmente provando pela vida inteira, o acre sabor da sua própria mentira. Os indiferentes à ética, à consciência cidadã, à justiça social e à democracia.
Os que torcem de pé junto apostando sempre na tese do “quanto pior melhor”. Os que ficam literalmente com o 'diabo nos couros' quando as coisas acontecem de modo afirmativo. Viram verdadeiras bestas-feras quando se deparam com ações sociais engrandecedoras, iniciativas pioneiras, obras edificantes, enfim ... 
São os agourentos de plantão. Os cupins humanos. Os falsos profetas; cínicos e pessimistas. E que por isso mesmo constituem o que há de pior na sociedade atual, quando o assunto é política como instrumento de transformação social. 
Os que não conseguem enxergar nada, além do seu próprio umbigo e dos seus interesses espúrios pessoais. E que acostumados demais aos seus disfarces, terminam por pagar um alto preço, por terem perdido a identidade de si mesmos. 
Os que sorriem fácil com os lábios e mordem-se por dentro com o coração. Os que ficam ensandecidos quando percebem que as coisas estão dando certo com aqueles que eles têm por inimigos. Os mascarados da vida que têm no disfarce a mais pusilânime das suas armas: O sorriso covarde e venenoso. Além do elogios vazio e banal. O tapinha suave no ombro, bem como o aperto de mão malicioso e maquiavélico.... 
E por fim, como diria Santo Agostinho; só existem dois tipos de inimigos realmente perigosos: os que perseguem e os que adulam. No entanto é preciso temer mais a língua do lisonjeiro do que as mãos do perseguidor. 
Então é isso. Podem vir... Estamos prontos!
.......................................
José Cícero – 
Aurora – CE.
  • Luiz Carlos Aquino Mais um brilhante texto produzido pelo não menos brilhante escritor José Cícero. Desta feita, direcionado a alguém ou a algum grupo específico, uma vez que "a semelhança não é mera coincidência", como faz registrar o autor.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A METAFÍSICA DA MORTE...*

Se me perguntares o que é a morte,
juro que preferiria falar da vida.
Porém se insistires tanto
eu  apenas diria:  
que a morte  é uma besta-fera.
Uma consequência de tudo, 
certo ou tardia. 
Uma mula velha perdida e endiabrada.
Um cio de cadela...
Uma jumenta tarada em disparada 
com uma bicheira doída abaixo da cia 
e além da sua cangaia torta. 
Além de uma ferida braba sobre as costas.
A burra louca da vida...
correndo em disparada
como a nos levar  pra longe no osso
ou   na lua da sua sela 
um tanto desgastada.
Uma égua parida e cansada
de tantas idas e vindas...
E se não for suficiente minha resposta,
direi ainda, que esta peste indigna
é uma megera ingrata que nos persegue.
Uma doença mal curada.
Uma íntima inimiga a nos pedir água
na soleira da nossa própria porta.
Ainda assim, se não for bastante,
direi  também que a morte é indolente.
Uma topada forte, um aperreio de vida.
Uma pereba braba, uma pancada no baixo ventre.
Uma coisa feia, uma bruxa pelada.
Quem sabe, a própria besta fubana
Uma maldade da bixiga lixa
Uma rapariga mundana.
Uma  lagartixa choca.
Uma cagada de pato. 
Uma indecente proposta.
Ainda, se a minha resposta não for boa,
direi também que a morte
é a mais indesejada das gentes.
Uma temeridade à toa, posto que é certa.
Uma cara feia e sisuda de coroa.
Um fantasma. Um cantada indelicada.
Uma asma noturna, uma dor de dente.
Uma sombra que nos acompanha.
Uma coisa ruim que que sempre enjoa.
Uma ladra que nos rouba dia e noite,
tanto a vida, quanto a paciência.
Ou ainda, quem sabe, uma covardia,
uma estrada longa, escura e desconhecida.
Uma fome dos seiscentos diabos
que por mais que nos coma, jamais sacia.
Uma macaca velha. Uma gia, uma serpente,
Uma sentença ingrata, uma inimiga.
Uma terrível visita inconveniente
que às vezes tarda mas nunca falta.
Uma coisa que nos atormenta, angustia e mata.
Uma abstração concreta.
Uma bicha amolengando a gente.
Uma doidice superlativa.
Uma brasa quente e sempre viva.
Uma filha da puta e de uma égua. 
Uma légua tirana que nos cansa.
Um porre e uma ressaca de cana fubuia.
Uma ninfomaníaca, uma queda de jumenta.
Uma usura ressabiada. 
Uma surra de cansanção, uma piada chata.
Uma briga de foice e faca às escuras.
Um canto de cerca.  Uma dor lascada de barriga 
acompanhada de uma caganeira.
Uma contradição existencial e política.
Uma estaca de jurema roxa
sobre a bunda e a consciência dos esnobes
que com seus dinheiros,
ainda se imaginam donos do mundo e da vida.
Uma praga. Uma alma penada noturna.
Uma comida insossa.
Uma metáfora estranha e esquisita.
Uma maldição que nunca passa.
Uma conta bancária absurda
que nunca se paga,
por mais que a gente insista.
Uma dívida cara, inexata e injusta.
Uma coisa ignóbil. 
Um pá de chifre de mulher feia.
Um chupa-cabra...
Uma fera do pasto solta pelas estradas
e por toda vida,
que sempre nos mata, nos come e vomita.
......................................
(*) José Cícero
In "Minhas Metáforas Prediletas" - inédito/2014
Aurora - CE.
foto ilustrativa: http://3.bp.blogspot.com

terça-feira, 12 de agosto de 2014

QUANDO DEUS CHAMOU RAIMUNDO*



- À memória de Raimundo Fidélis(Padim).
Quando Deus um dia chamou Raimundo
para uma prosa alegre.
Era um sábado, um feriado.
Manhã em claro.
Um dia clássico de Finado.
Deus disse - Estou um tanto entediado,
preciso de alguém ‘pra frente’.
De uma boa prosa.
Alguém que torça comigo o Flamengo.
Que me conte estórias edificantes,
piadas amenas e outras quentes.
Alguém que saiba muito
como o bom Raimundo.
Quem sabe, alguém que passara dos noventa.
Um cara de caráter, ‘boa gente’...
Pra ser meu conselheiro e meu amigo.
Que me conte coisas interessantes.
Que seja querido, ético e verdadeiro.
E quando Deus finalmente chamou: - Raimundo!
Ele respondeu, alegremente: " É isso"!
- Diga aí meu mestre!
Deus lhe confidenciou baixinho:
- Estais pronto?
E ele, com o sorriso de sempre.
Respondeu: - Só se for agora!
Pois há muito que já dei conta
do meu fardo e minha história.
Em seguida, num leve afago
Deus falou tão docemente:
- De fato, cumpriras fielmente
tua missão no mundo.
Dai-me as mãos: - Vamos Raimundo!
Vem comigo!..
Muitos estão a te esperar
lá em cima, no outro plano.
E “Padim” um tanto tranquilo
replicou de súbito:
- ora, ora... Então vamos.
Ainda olhou pro ambiente
como quem se despedindo.
E antes mesmo de cair no sono
foi logo dizendo:
- Adeus minha gente!
............................
(*) José Cícero
Aurora - CE
www.prosaeversojc.blogspot.com

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PELO AVESSO*


Tudo o mais está esquisito ou estranho demais para meu juízo.
As borboletas não mais carregam sobre suas costas 
as belas manhãs do colorido primaveril antigo.
Meus olhos estão saturados de tantos escuros.
Nem mais as noites são carregadas como dantes
por imensas multidões de vaga-lumes.
Toda a estética do que era belo sumiu no plenilúnio.
Cansado de tanto brilho falso
o sol se escondeu no dia de domingo ou tirou férias...
Eis agora o inusitado cosmogânico 
em que a vida toda se encerra.
Não mais se escuta som de besouros pelo mundo.
Tampouco o barulho das águas frescas correndo nos rios
E o que sobrou dera lugar ao silêncio eterno.
Não há mais chuvas de janeiro nem maio.
Aromas de flores, perfumes dos ventos em seus assobios.
E sem as antigas estórias de trancoso
que alimentavam de sonhos os meninos
e de utopias bonitas os crescidos,
todos os passarinhos desde então,
estão dormindo muito...

Além do que é preciso para tecer as madrugadas.
Os bichos agora têm medo dos matos.
Há alienígenas e vodu por todo canto.
O ato de pensar passou a ser um risco e tanto.
E por conta disso, burros e cavalos 
agora estão pastando nos nossos quartos.
Lendo nossos livros de poesia e catecismo.
Macacos e lobisomens nos atormentam o senso crítico.
A ignorância dos irracionais venceu a inteligência dos homens.
Tudo o mais agora é vazio e tédio imenso... 
Nada mais possui o seu sentido prático.
A vida perdeu seu prumo e não tem sentido 
quem sabe num verso de Drummond e de Vinícius.
A metafísica das coisas caiu no ralo do banheiro.
O absurdo tomou conta por inteiro do racionalismo.
Estamos gregários e perdidos em absoluto
em meio a tantas ideias de rebanhos.
Desde muito, nenhuma filosofia nos basta...
O cosmo é a nossa própria pança.
Tudo o mais é puro desejo e outras vontades.
Há lixo demais no nosso pensamento contemporâneo.
A moda agora é ser medíocre. 
como  moderno é conseguir ser ignorante ao extremo.
Contudo, o poder mundano tem seu preço.
O castigo de Midas está apenas começando.
Silêncio profundo grita aos ouvidos dos elefantes.
Viver agora é um grande risco...
Existe um modismo sistemático de cachorro sardento.
Ser cínico e artificial é ser também elegante e bonito,
além de demasiadamente humano...
O segredo do sucesso é querer a qualquer custo 
levar vantagem em tudo
passando  o tempo todo a perna nos semelhantes.
Tudo está morto ou está mudo.
O solidarismo há muito morreu 
e não ressuscitou ao terceiro dia.
Os homens estão cada vez mais cegos
diante da barbárie e do exício 
pleno de idiotices, cheios de si mesmos.
A morte passou a comanda de vez o mundo.
Enquanto a fauna humana continua insistindo
brincando seriamente com o impossível.
Os homens continuam adormecidos

entretidos demais com o perigo.
Sem ainda se darem conta,
que nunca poderão comer dinheiro.
Ninguém aprendeu ainda a ser feliz.
De modo que, tudo que me resta é o sorriso
todas as vezes que "eles" me chamam de poeta louco.
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__
(*) José Cícero Silva
In Loucos e Insensatos - inédito 2014
Aurora - CE.