segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quando conheci Clarice ...*

Por José Cícero

Hoje pela mais pura curiosidade que vez por outra me atormenta a alma e o espírito, resolvi beber um pouco mais do transbordante cálice literário de Clarice Lispector. Vez que há algum tempo estava por assim dizer, abstêmio do seu inebriante absinto poemático. Razão pela qual acredito que psicologicamente o meu íntimo encontra-se famélico e sedento da suculenta escrita claricense.

Justamente agora no aniversário dos 35 anos do seu desencarne. Quisera eu saber da escritora que há muito impregna a minha alma, desde os meus idos estudantis, quando pela primeira vez na vida, tive a chance e a oportunidade de entrar numa biblioteca farta, algo a que não estava habituado – A coleção completa das obras da escritora.

Quando um mundo novo, surreal e fantasioso se abriu diante de mim em toda a sua infinitude astronômica. E lá estava ela, Clarice Lispector(quase que de carne e osso) com o seu inigualável sorriso um tanto quanto subliminar. Olhos de segredos e de mistérios. Um olhar de vidro como diria Carlos Drummond de Andrade. Quase uma esfinge a nos escavacar por dentro, gritando alto em seu silêncio em milhões e milhões de metáforas. E assim, ela rompia a minha timidez com sua lavra grandiloqüente num oceano incrível de palavras. Eu apenas não compreendia porque quase ninguém, além de mim naquele ambiente escolar queria saber da poesia de Clarice. De modo que era uma estranha, quase uma ilustre desconhecida até mesmo para os mestres...

Olhava seu retrato sob a capa daqueles livros amarelados de tanta espera. Seus olhos eram mais significativos do que seu próprio nome. Adornados ligeiramente por um belo olhar oblíquo caucáciano, mas que me metia um certo medo ao passo que me enchia de curiosidade e estranhamento. Desde então, tomei conhecimento que uma tal de Ucrânia existia em algum lugar do mundo, assim como a própria poetisa Lispector a crescer viçosamente no solo capibaribano do Recife nordestino. E que só depois de algum tempo se instalaria no chão fluminense.

Esquadrinhei seu rosto sisudo e quase marmóreo. Riso torto escondido, talvez pela sua maneira diferente de ser verdadeira e intimista além da conta. Olhos inchados, quem sabe pelas noites em claro gastas na tessitura dos seus versos. Ou ainda até mesmo, encharcados de fumaça dos seus intermináveis cigarros a se esvair por entre seus dedos. E eu olhava seu semblante diametralmente oposto a todos os olhares nordestinos. Russa feição de mulher que escreve e pensa a vida. Suave e pesada face do mistério literário e, através da qual não mais enxergava o nosso Patativa, nem Rogaciano, nem Juvenal, Cego Aderaldo, nem Bil Pereira e, tampouco aquele ceguinho Oliveira com sua Rabeca roncosa da feira das ruas do Juazeiro ainda a encher minha cabeça de lembranças, sempre quando alguém falava de verso, cordel e poesia.

Acho que Clarice foi a minha primeira paixão adolescente. Quem sabe um lenitivo psicológico na ânsia de puder amenizar a minha solidão de estudante quase abandonado no internato, sobre a serra do colégio agrícola do Crato. Minha admiração pela poetisa ia muito além da sua produção literária. Penso hoje que a minha imaginação não tinha fim. Ficava a ponderar como seria os beijos daqueles lábios. O afago das suas mãos. Sua voz, assim como o meneio dos seus canelos soltos ao vento das praias do Leblon... Clarice era de fato, uma paixão de menino a que a poesia me dera de presente.

De forma que, a partir daquele instante inusitado, era a mulher Lispector que tomava de conta do meu senso adolescente de leitor neófito e estudante. Um sonhador em seus devaneios sem tamanho que também se imaginava um dia fazer seus próprios versos e dedicá-los todos à Lispector.

Tentei naquele primeiro momento conhecê-la com a natural sofreguidão dos pequenos, mergulhar dentro dos seus olhos carregados de silêncio. Mas os olhos de Lispector eram profundos demais para o meu Eu menino diante das coisas do mundo. Um oceano imenso a ligar dois mundos eqüidistantes por uma variedade indescritível de sentimentos. Medroso e desconfiado demais das coisas escritas que vinham de longe eu me recolhia e chorava poeticamente por dentro.

Mas aquela escritora me seduziu ao extremo, ao ponto de me entregar a ela como um condenado que se entrega ao carrasco. Sorvi seus livros em infindos goles demasiados. E diria que ainda hoje, sinto-me por conta deles, assaz embriagado com a sensibilidade poética de Lispector.

Sentia um incontrolável desejo de devorar de uma vez por todas os seus livros. A Ucrânia agora era como o quintal de casa e o Recife o terreiro da frente. A poesia de Clarice me levava a isso – puro desvario. Por meio dos seus livros, ganhei o oco do mundo, como um cavaleiro andante dos céus montado nos contos fantásticos e nos poemas de Lispertor. Travesti-me de vez de dom Quixote e Sancho Pança. Clarice seria por fim, minha Dulcinéia. E desde então, nunca mais fui o mesmo. Posto que cresci enormemente quando a conheci em seus maravilhoso versos...
Virei gigante através da prosa e da poética daquela escritora fenomenal a quem muitos a definem como hermética e fria. Mas que eu absorvia em linguagem como ninguém, muito além dos imagináveis meneios poemáticos de mulher; musa poetisa que conseguira cantar em todas as suas dores e o seu silêncio literário os segredos da vida, as alegrias, assim como as tristezas do mundo, por meio do verso perfeito e de uma prosa ardente e fascinante.

Devo muito a Clarice. De modo que hoje, no aniversário dos 35 anos da sua morte clamo aos deuses da poesia que transmitam a Lispector toda a minha gratidão pelos seus escritos que me abriram os olhos para a vida e a mente para o imponderável existencial.
Informe:
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920. Morreu um dia antes de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro.
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(*) Prof. José Cícero
Secretário de Cultura
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terça-feira, 5 de junho de 2012

Ao Dia do Meio Ambiente: “Pinga” que te quero vivo...

Por José Cícero*
1- Cachoeira/Rio Salgado M.Velha. 2 - equipe: JC, Kledson, Bruno, Marx, Zuis e Wesley. 3- Equipe, 4 - idem.









Imagens da incursão à Cachoeira(rio Salgado) em direção a nascente do "Pinga" de M. Velha

Uma pequena análise sobre as ameaças que pesam sobre o Bioma da Cachoeira e a nascente do “Pinga” do rio Salgado em Missão Velha


Num passado não muito distante ele era tido como um local famoso – Uma nascente como tantas que noutros tempos abundavam pelo Cariri equilibrando a vida dos ecossistemas, em especial a vazão cotidiana do Salgado rio. Antes, toda a cidade pelos menos sabia da sua existência ao contrário do que acontece nos dias atuais. Visto ser ela uma das maravilhas naturais da não menos famosa e lendária Cachoeira de Missão Velha. Todos os habitantes o sabiam pelo seu nome natural de batismo sertanejo , ou seja: “O Pinga” da Cachoeira ou da Lapinha. Inusitada nascente encravada entre as rochas que margeiam o Salgado a quase uma légua do centro da cidade.

Um ‘olho d’água’ que outrora abasteceu com sua límpida e pura substância da vida boa parte da então pequena elite missãovelhense. De tão boas e ligeiramente azuladas, havia até quem apostasse que aquela água tinha suas propriedades medicinais. “Água boa de beber que inté dá pena de se gastar no lavar dos panos” costumavam dizer as antigas lavadeiras dos rios. Hoje decerto, a tal modernidade a chamaria simplesmente de “mineral”. A nascente também foi local de descanso para antigos caçadores e pescadores ribeirinhos.
Mas, infelizmente como se percebe, nenhum destas qualidades foram suficiente; pelos menos o bastante, para livrá-lo do atual estado de abandono e do imoral descaso no qual está relegado e submetido como que por castigo. Portanto, o que ora acontece com aquele bioma é uma tremenda e vergonhosa pervesidade.

Protegida por um conjunto de árvores altas e frondosas a nascente permanece ali calma e tranqüila como um anjo de Deus a olhar para nós pedindo clemência. Árvores na sua grande maioria antigas de troncos enormes com suas raízes sedimentadas sobre as rochas e os lajedos. Algumas espécies conhecidas, outras nem tanto. Muitas até frutíferas, há muito plantadas pelos que lá moravam, algumas delas nativas. Jenipapos, Oliveiras, Mangueiras, além de catolé, oitis, jatobás, cajá, imbu, pinhas dentre outras.

Um lugarzinho incrívelmente fresco e bucólico, fincado entre a caatinga e o chapadão do rio Salgado. Um magnífico paredão à direita do manancial mais parece uma fortaleza geológica. Deveras intransponível repleta de plantas nativas e samambaias, de ninhos de urubus e muitas outras espécies de aves só encontradas nesta região.

Foi uma visitação gratificante que fizemos neste final de semana o último do ano. De maneira que nos arredores do “Pinga” era como se estivéssemos todos protegidos por uma grande cobertura vegeral. Tamanha era a sombra daquelas copas imensas. Um mundo só de verde e clorofila prenhe do mais puro ar. O sol estava quase a pino e o calor daquela tarde era insuportável. Mas, na beira da nascente a sensação era completamente diferente. Um microclima aprazível marcado pela mais absoluta frescura dos ventos caririenses. Quem sabe, um ar-condicionado natural a que todos deveriam experimentar. Quem sabe assim, despertassem de vez para a importância da defesa e da preservação daquela maravilha. Uma das mais autênticas expressões de Deus na terra...

Nos anos idos, era comum encontrar pelas veredas daquelas matas um certo senhor sertanejo, agricultor de pele escura quase tostada pelo sol. Um exímio tangedor de animal – morador do local e cuidador do lugar, a conduzir sob o lombo do seu jumento duas ancoretas contendo o precioso líquido do “Pinga” para os potentados da cidade, principalmente o Dr. Raimundo Alves antigo proprietário do terreno onde a pequena nascente está localizada. Do meu tempo de menino(até hoje), nunca me esqueci daquele homem ‘estradeiro’ a caminhar com seu asno todos os dias, pacientemente nas suas idas e vindas a levar a água do “Pinga da Lapinha” para a cidade. Um verdadeiro "Prometeu" dos sertões do mundo entregue por inteiro a sua sina. Uma lida que parecia nunca mais ter fim.

Devido a distância e a dificuldade do acesso ao local cercado de mata quase fechada e de um solo acidentado e pedregoso, não era barato a carga d’água do “pinga”. De modo que, bebê-la em casa era, por assim dizer, quase um luxo e, para poucos(diga-se de passagem). A água do velho “pinga” da cachoeira era equivalente a “mineral” a que todos consomem com facilidade agora. Algumas delas vindo de muito longe e até de outros estados nordestinos. Hoje contudo, o ‘pinga’ perdeu o seu antigo valor para a maioria. Caiu no anonimato da história. Ficou esquecido. E aos poucos está sendo engolido e devorado pela pressa e o imediatismo de uma geração tida como moderna dos três “is” - ignorante, insensível e indiferente, notadamente às verdadeiras riquezas que a mãe natureza nos legou ao longo da história humana.

Mas, por incrível que pareça a fonte do “Pinga” não morreu. Posto que ainda mantêm o seu antigo encanto. Está lá tranqüila e silenciosa como um cristão da vida resignado com o sofrer do seu destino. Vivendo toda a sua solidão, cochilando sobre os imensos lajedos que margeiam o Salgado, desde o "goelão" das belas quedas d'águas. No entanto, é preciso tem olhos para vê-lo e coração sensível para senti-lo na sua intreguidade. Do contrário, só restará uma imenso vazio. O “Pinga” não morreu, mas corre risco de morte, caso permitamos que o seu sofrimento se prolongue além do suportável.

O abandono do campo também feriu de morte o velho “Pinga”. Ninguém mora mais por ali, isolado, distante de tudo onde sequer a eletricidade dera o ar da sua graça. A única residência ( a chamada Casa de Pedra) que lá existiu; agora por mais de duas décadas encontra-se abandonada, destruída pelo tempo, caindo aos pedaços. As matas tomaram conta de tudo, como se quisessem de volta aquilo que os homens tomaram-lhe um dia e não se deram sequer ao trabalho de preservar para às futuras gerações. Simplesmente por não “saber cuidar” de quase nada que não seja por poder e por dinheiro.

O teto da casa desabou. Contudo, algumas das suas antigas paredes de pedra e barro ainda se mantêm de pé. Apenas o velho pé de imbu insiste em resistir ao desprezo dos homens e o intemperismo do tempo, com seu aspecto verdejante e seu grosso tronco enrugado a rolar pelo chão como uma serpente enorme. Quem sabe, a nos mostrar que de fato, toda a veracidade da máxima euclidiana de que “ o sertanejo é antes de tudo um forte”.

Porém, não é apenas o “pinga” que está a correr sério risco de desaparecer. O bioma da caatinga em seu entorno, assim como todo o manancial da Cachoeira e do rio estão sob a mira do tiro de misericórdia. O fogo cruzado da destruição desenfreada em nome do capital. Há sinais de degradação dentro da mata. Clareira e derrubadas, veredas rasgadas por máquinas e explosões dos lajedos para a retiradas de um tipo pedra ali existente bastante requisitada para as modernas construções citadinas. Assim como atalhos e caminhos feitos pelo gado bovino criado como que à solta, embrenhado na caatinga da cachoeira de Missão Velha.

Mesmo assim, felizmente ainda é possível se ouvir o canto de pássaros silvestres, árvores endêmicas frutificando e outros bichos daquele nicho ecológico. Fauna e flora insistindo na sua antiga e necessária harmonia natural. A se perpetuar desde os tempos imemoriais. De modo que aquilo tudo junto nos invade os olhos, os ouvidos, as narinas tocando a nossa pele como se fosse um afago de Deus deixando em nós um pouco do perfume dos arvoredos e o benfazejo refrigério das águas. Ao ponto de pensarmos como nos velhos tempos; de que a caipora e o pai-da-mata ainda estão por ali.

De resto, andar pelos antigos caminhos que nos levaram ao “Pinga” foi como mergulhássemos dentro de nós mesmos. Um grande retorno ao passado. Deixarmos invadir por uma sensação de paz interior nunca dantes experimentada em nossas vidas sertanejas. Algo que, sobretudo nas grandes cidades, diria que não tem preço.
Todavia naquele rincão missãovelhense, a natureza como se percebe, está fazendo sua parte. De sorte que, depois desta prosaica incursão ecológica e memorialista peço aos meus conterrâneos em particular e, ao povo do Cariri em geral, que não se permitam a mais este crime. Não deixemos o “Pinga” morrer. Tampouco o Salgado se envenenar. Do contrário, o futuro certamente não nos absolverá...
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Prof. José Cícero
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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Te dou de mim o que couber tua mão

A frase mais descabida,
O discurso da razão;
O meu sentido da vida
Um simples samba-canção:
Te dou de mim o que couber tua mão.

As lágrimas da despedida
E as da reconciliação;
A risada mais distraída,
Um grito de decepção:
Te dou de mim o que couber tua mão.

A raiva pela alma ferida,
As festas da ilusão;
A elegância perdida
Dos meus passos no salão:
Te dou de mim o que couber tua mão.

A brisa suave sentida
Num belo e antigo verão;
A força bruta temida
Do mais feroz furacão:
Te dou de mim o que couber tua mão.

E ao fim, te vendo esquecida
Da angústia, do medo, do não,
Saberei que fui rico na vida,
Pois do que sou coube tudo
Na palma da tua mão.
....................................................
*Romério Rômulo
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

O valor incomensurável das coisas simples e imorredouras da vida*

Por José Cícero
JC ao lado do famoso radialista esportivo do Cariri e do Nordeste Fco. Silva - Foguinho

Uma passagem pelos Sebos de livros e de discos de Juazeiro do Norte

Na última quinta-feira(3) quando em Juazeiro do Norte resolvi visitar alguns sebos – buscando encontrar alguns livros raros que no mais das vezes não se encontam no mercado editorial. Tal comércio de obras usadas, que graças a Deus está ressurgindo aqui no Cariri fica localizado na antiga galeria Zé Viana, bem como numa ruazinha que nem sei o nome, paralela a famosa rua São Pedro. Fiquei surpreso diante da quantidade e variedade de obras ali existentes.

Não por acaso, sempre desejei ir ao Recife, não apenas para contemplar o velho Capibaribe que inapelavelmente nos remete não apenas à Veneza imaginária, assim como à memória dos pernambucanos poetas Manoel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Meu propósito, contudo, diria que seria igualmente visitar e vasculhar os famosos Sebos que segundo dizem, ocupam quase todo um quarteirão antigo da bela Recife.

No Juazeiro do meu padim comprei algumas pérolas da literatura mundial: Marcel Proust, Moliére, Victor Hugo, Remingway, Edgar Allam Poe e Oscar Wilde, além de uma obra sobre Lampião(creio que me servirá na pesquisa que ora faço acerca do rei do cangaço em Aurora). Comprei ainda por um preço módico um clássico - 'A vida secreta' de David Jacobs sobre a fenomenologia ufológica a qual também sou adepto. Despois decidi dá uma esticadinha até a rua São Domingos pra bandas da “caixa d’água” quase no centro.
Fui visitar como sempre faço quando disponho de um pouco mais de tempo, o empório musical de antigos discos de vinis do agradável, famoso e simpaticíssimo 'Zé Baixim dos discos'. Lá consegui um Bob Dylan, ABA, Lobos e Trio Nordista.

Zé Baixim dos Discos com Adriano Anão e José Cícero no seu empório de discos antigos de vinil em Juazeiro do Norte-CE

Outro dia publiquei um artigo-reportagem na internet, isto é, no Blog de Aurora e noutros veículos similares. Abordando o resistente ofício de vendedor de vinil do Zé. Assim como a preciosidade do seu acervo quando logo recebi uma ligação da repórter do jornal Diário do Nordeste(caderno regional) Elizângela Santos. A mesma havia se interessado pelo assunto e ansiava publicar uma nova reportagem no DN. O que foi feito e, em cuja matéria também inseriu meu depoimento. Que bom que os velhos e românticos bolachões e contendo a boa música do passado ainda dão "ibope" pelo menos no meio jornalístico.
De forma que a tal reportagem, para a minha surpresa, estava lá emoldurada num quadro na parede do comércio do velho Zé Baixim com direito a fotografia colorida e tudo. O que segundo ele, é o único objeto que não está exposto à venda naquele ambiente dominado pelos antigos discos de vinil e posteres de artistas de época. Sempre gosto de fotografar as capas antigas mesmo que não as leve comigo, porque sei o quanto somos sem memórias...

Um encontro com o famoso radialista esportivo Francisco Silva – Foguinho.

Mas a minha alegria do dia não se resumiu apenas a este contato livresco e discográfico. Meu contentamento maior foi ter praticamente esbarrado por uma feliz coincidência, no momento em que eu saía do Sebo com uma figura das mais queridas da radiofonia esportiva do Cariri e do Nordeste – Francisco Silva – O popular 'Foguinho'.
Ele que nos últimos anos tem passado por problemas sérios de saúde, o que quase o afastara definitidamente da lida radiofônica regional. Já que não milita mais na bancada dos microfones, pelo menos no que tange às narrações esportivas que noutros tempos o fizeram notábel em boa parte do país. Lembro inclusive, do Foguinho narranda a copa do Mundo e o mundial do Japão. Era, por assim dizer, a nossa voz sertaneja gritando alto no além-fronteira.
Como também, quando eu ainda era menino o vi por diversas vezes narrando nas tardes de domingo no estádio Valdemiro Dantas - 'o Dantão' em Missão Velha nas memoráveis e inesquecíveis partidas do Real FC missãovelhense. Além dos clássicos juazeirenses obviamente, nos anos áureos e românticos do nosso futebol do Cariri...Num tempo em que sabíamos de cór todos os nomes dos jogadores de cada time. E quando o rádio ainda era de fato, um sucesso de massa e sua audiência uma verdadeira coqueluche.

Afável e cordial privei naquele instante e no entardecer de Juazeiro do seu abraço e, rapidamente falamos das poucas vezes que ele estivera em Aurora em inolvidáveis transmissões esportivas, quando ainda no antigo ‘Romãozão’. Na época ele ainda era uma grande novidade. Uma verdadeira sensação, um acontecimento social... Quando naquela ocasião tive o prazer e, falamos sobre este fato – de na última transmissão de Foguinho em Aurora ser o seu comentarista. Num jogo entre Guarani x Seleção de Aurora.
Lembro que no final da partida, Foguinho veio me agradecer e dizendo que havia gostado da minha participação. E, confesso que acreditei no seu julgamento. E em seguida, me fez mais um convite para uma transmissão do ‘Inaldão’ de Barbalha. Fiquei de dá-lhe a resposta até hoje...

Por onde andará agora o grande literato e espiritualista Aldenor Benevides?

Agora que me (re)encontrei com o grande e imortal Foguinha no juazeiro do meu padim, queria igualmente rever o decano literato Aldenor Jaime de Alencar Benevides. Uma das mais completas e humanistas figuras que já testemunhei na vida.
A
última vez que o vi estava extremamente debilitado em face dos seus sérios problema de saúde. Posto que já ultrapassara seus mais de 90 anos de existência - idade física, como ele próprio gostava de resssaltar. Já que era uma Kardecista convicto e acreditava portanto na reencarnação.
Era, como ainda o é, um homem de uma visão simplesmente monumental e por demais holística. Um cara de pensamento positivo e avançado. Há muito que não tenho notícia daquele grande mestre que aprendi admirar com todas as minhas forças e convicções. Com ele e, sobretudo com os seus gestos e ensinamentos confesso que aprendi muito...

Possuo quase todaa série das obras - livros de bolso, que o mesmo editava a sua própria expensas e enviava gratuitamente pelos Correios para todos os amigos e a população leitora de várias parte do Brasil. Segundo ele, era a melhor maneira de se ajudar a desenvolver na juventude o hábito da leitura. Uma das mentes mais férteis e um coração de santo, tamanho era o seu desprendimento material e a visão de mundo que possuia.

Nunca esqueci quando ele me escreveu dizendo que estaria doando sua biblioteca e me escolhera com um dos ‘recebedores das suas obras’. Como também quando me entregou o diploma de sócio-correspondente do Instituto Cultural do Vale Carienses(ICVV). Ainda, quando das duas ou três vezes que fui a sua casa na rua São José para receber seus passe espirituais e os livros que me doara. Na última, ele quase não andava e tinha dificuldade, inclusive, para ouvir. Nossos contatos eram quase todos à moda antiga, ou seja, por correspondência via correios.
Que saudade do grande Aldenor – como ele mesmo dizia – o filósofo do piripau. A quem chamarei ainda hoje de homem de Deus. Um espírito realmente da mais pura exceção. No fundo como a qualquer tempo, sei que estará comigo em espírito e pensamentos....

Posto que toda a grandeza assim como a força da sua energia sutil e supra física superará todas as barreiras, acaso imposta pela matéria. Presumo por fim, que o nosso velho e bondoso filósofo do piripau, é luz que nunca se apaga. De modo que estará sempre comigo.
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JC para o Blog de Aurora.
Fotos: Adriano Sousa Anão

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sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma Flor para Millôr - Por José Cícero

Cartunista e escritor Millôr Fernandes que faleceu terça-feira dia 27 no RJ.

Está mais triste o humor.
As tiradas mágicas e inteligentes do bom cartum.

Diante da inesperada partida

do velho dramaturgo e cartunista,

Escritor e jornalista;

que quisera acompanhar Chico.

- o nosso adorável Millôr.

Está mais pobre a piada.
A crítica ácida, inventiva, sociopolítica

e literária.

A veia frasista do mágico poeta.

Toda a charge do Brasil chorou.

Com a partida antecipada

do grande cartunista Millôr.

Nada mais será como dantes.
Posto que está triste o cartum.

Com o encantamento do escritor.

- Uma flor para Millôr Fernandes.

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Nota:
Uma prosaica homenagem a este grande pensador do Brasil - Millôr Fernandes que falecera na última terça-feira, dia 27 de março no RJ.
*José Cícero/Aurora-CE.

sábado, 24 de março de 2012

O Cavaleiro da alegria...*

TRIBUTO AO VELHO CHICO ANYSIO

O Brasil está mais triste e de luto.
Partiu num vôo abrupto.
O nosso grande Chico.
Foi embora num prateado disco
O maior comediante do mundo.

Deixara conosco sua prole
Seus mais de duzentos filhos.
Inventivos personagens e tipos
que por mais de sessenta anos
encheram nossas noites de brilhos.

Partiu num vôo fantástico.
O imortal humorista do Brasil.
Um consagrado artista do povo.
Artífice do mais inteligente humor.
Personagem eterno que o país aplaudiu.

Foi embora o fazedor de sonhos,
graças e sorrisos.
Partiu na nave da alegria
e sob o vento alísio.
O cavaleiro andante
– Chico Anysio.
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(*) José Cícero
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sexta-feira, 23 de março de 2012

QUANTO CUSTA?

Quanto custa uma légua tirana.
Um eito de terra?
Uma rota batida.
Uma braça de água fria.
Um alqueire de baixio.
Uma ventania da serra.
Uma casinha de taipa.
Uma dúzia de ovos de galinha caipira.
Uma égua parida.
Uma tapióca.
Uma tropa de jumento de lote.
Um taco de bolo de puba.
Um tacho de mel
Uma carga de rapadura.
Um punhado de farina na cuia.
Um copo d’água dormida do pote.
Um saciar de fome e de sede.
Uma caminhada tranqüila na mata.
Quanto custa?
Uma burra baixeira.
Um alforje,
um batoque.
Uma baladeira
Um gibão.
Uma cabaça d’água
Uma légua tirana.
Um bando de passarinho.
Uma coceira gostosa.
Uma corda.
Uma hora perdida
Um cochilo na sombra da moita.
Um galão d'água
Uma roseira cheirosa
Uma dança no forró na latada.
Uma cerca de avelós.
Um pires de mel de Jandaíra.
Uma cacimba rasa.
Uma bicada de cana de alambique.
Um saia encarnada.
Uma tapera.
Uma biqueira.
Uma cerca de vara
Uma mangueira carregada
Uma mordida no beiju.
Uma boa prosa.
Uma noite de lua.
Uma roça de milho.
Um segredo.
Um mistério.
Um pote de aluá.
Uma botija.
Um café torrado no caco.
Uma caneca de leite.
Um pão de milho moído.
Um pastel de Vicência Maciel
Uma viagem no trem do Crato.
Um doce de buriti.
Um cozinhado de andu
Uma panelada de pequi.
Uma paçoca.
Uma buchada de bode.
Uma queimada de urtiga.

Quanto custa,
tudo isso aqui na metrópole?
- Alguém por Nossa Senhora,
ou pelos seiscentos diabos me diga.
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José Cícero

Inédito - 2012.
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